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FLÁVIO MOBAROLI

As ações que resultam na moralização das estruturas, sejam públicas ou privadas, merecem meu respeito incondicional. Portanto, a operação que expôs os bastidores da Fifa deve ser considerada um marco no futebol mundial, qualquer que tenha sido a sua motivação.

Especula-se que as acusações de corrupção no órgão surgiram em decorrência da escolha do Catar como sede da Copa de 2022, sonho de consumo dos Estados Unidos. Pouco importa. Entre o mundo ideal de atitudes desinteressadas e o real das medidas necessárias, fico com o possível.

Não acredito que todas as mazelas do futebol sejam curadas agora. Na verdade, algumas coisas não costumam mudar. Mesmo depois do escândalo e de suas proporções – temos sete nomes de peso do esporte presos na Suíça – a eleição da Fifa aconteceu logo após ser deflagrada a operação, e Joseph Blatter foi reeleito. É o peso pesado do dinheiro.

Mas, certamente, alguma coisa vai mudar. Já mudou. A estrutura foi afetada e o receio de novas prisões, de perder o comando de uma das mais ricas e poderosas instituições do planeta, deve estancar a sangria. Acredito em um pouco mais de transparência. Não porque as pessoas mudaram, mas porque tem alguém de pulso para cobrar que a regra seja cumprida.

Ainda teremos diversos desdobramentos em relação à corrupção na Fifa. Muitos nomes devem surgir com envolvimento no pagamento ou recebimento de propina. Parte importante da história recente do futebol está oficialmente comprometida. Seja pela escolha da África do Sul para sediar a Copa de 2010, o que se deu, apontaram as investigações, mediante pagamentos ilícitos, ou nas escolhas de Rússia 2018 e Catar 2022, ambas citadas como resultados de ações imorais e ilegais.

A minha maior dúvida dentro desse processo de assepsia imposto ao futebol mundial tem caráter paroquial. Temo que no Brasil os efeitos se mostrem frágeis e limitados. Temos o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, indiciado por quatro crimes. A movimentação na conta desse senhor ultrapassou os R$ 464 milhões entre 2009 e 2012. Número de meter medo. Registre-se que se trata do período em que ele esteve à frente do Comitê Organizador Local da Copa de 2014.

Temos o sucessor de Teixeira, José Maria Marin preso na Suíça. Ele figura entre os citados por envolvimento com essa máster maracutaia. O atual mandatário da CBF era vice de Marin. Marco Polo del Nero ainda não foi diretamente relacionado ao escândalo, mas não me surpreenderia nem um pouco se o nome dele surgisse nos próximos dias. Ele é da cozinha de casa.

Nossa Justiça, nossos parlamentares, nossa mídia e nossa população, juntos, precisam agir para que mais uma vez a coisa não passe impunemente por aqui, a exemplo da reformulação técnica que deveria via após os 7 a 1 e que jamais aconteceu.

Em tempo, ponto para o Juca Kfouri. E ponto para o Romário. Esses dois se posicionaram contra a malaiada da Fifa e da CBF. Menos um para o Pelé, que como diria o ‘baixinho’, “calado é um poeta”.

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