Home Opinião À procura do discurso perfeito

MARCOS VIEIRA

Em que medida a crise econômica nacional irá afetar o discurso dos candidatos a prefeito? Caberá aos políticos municipais testar o grau de confiança da população quanto às promessas de campanha, depois de uma presidente reeleita ter passado quase todo o ano de 2014 propagandeando um cenário falso para garantir o voto do brasileiro.

Já há alguns meses governadores e prefeitos têm afirmado que a redução nos repasses federais é o principal motivo para a falta de obras ou, e principalmente, a descontinuidade de alguns projetos esperados pela população. Qualquer promessa de campanha baseada em verba federal, portanto, será ancorada em quê?

Nesta falta de perspectiva de dias melhores para a economia, a crise afetará também o candidato da oposição. Pouquíssimas prefeituras têm caixa para grandes obras, o que inviabiliza um discurso de independência perante a União.

E se não tem dinheiro – e o povo já percebeu isso, nem adianta ficar prometendo –, a avaliação para definição do voto tende a levar em conta a capacidade de gestão, a criatividade, o que será possível fazer com que já se tem. Porque o povo espera que o governante faça com a máquina pública o que cada um tem feito em sua própria casa: economia para não deixar faltar o básico.

Será uma campanha atípica porque o candidato a prefeito não pode prometer mudanças na economia. Isso é conversa de candidato a presidente da República. E o município sempre é o que mais sofre porque fica com a menor parte dos impostos. Essa dependência extremamente nociva é denunciada ano após ano, sem que nada mude.

Para alguns, essa também será a campanha municipal que considerará mais o partido político do candidato. E que o cenário nacional, sobretudo no que diz respeito aos escândalos de corrupção, será citado frequentemente e levado em conta pelo eleitor. Em Anápolis não é isso que acontece.

Em outras disputas, o anapolino considerou o candidato, sem se basear muito em siglas. Prova disso é que mesmo com a aprovação altíssima do presidente Lula durante o exercício de seus mandatos, o PT só elegeu prefeito na cidade sete anos depois de ter chegado ao Palácio do Planalto. Anápolis também deu a esmagadora maioria dos seus votos a Marconi Perillo em quatro vitórias do governador, mas o PSDB nunca conquistou a prefeitura.

A prudência na hora de fazer as promessas deve ser, então, o ingrediente principal da campanha, porque qualquer excesso ofenderá o eleitor, cansado de ver os políticos ‘inventando a roda’ a cada dois anos e, quando eleitos, culpando a crise que eles mesmo construíram para a inércia que mata, metaforicamente e também na realidade.

Por isso, os candidatos de 2016 serão obrigados a encarar um eleitor mais crítico e furioso com todos os políticos, independente de ideologia ou posicionamento diante dos governos vigentes. Em tempos assim, espera-se uma abstenção maior, além de um aumento de votos brancos e nulos. O que seria um erro. Pior do que escolher errado é se omitir na hora de utilizar a única ferramenta dada à população, o voto.

A tentativa de reeleição do prefeito João Gomes também abre a possibilidade de que a campanha tenha um perfil plebiscitário, embora a crise, que reduziu a possibilidade de investimentos, talvez faça o PT se afastar dessa proposta. Caberá também àquele que exerce o poder hoje se reinventar, adequando as promessas passadas que não foram cumpridas à realidade de um País que enfrenta uma recessão.

Quem buscará o voto para vereador também não deve esperar um cenário tranquilo. O Legislativo é alvo natural das críticas porque para muitos é visto como um poder perdulário, com poucos resultados práticos. A bagunça que se transformou a Câmara Federal e a falta de iniciativa e os casos de corrupção que também impregnaram o Senado contribuem para essa imagem desgastada dos parlamentares.

As dificuldades não representam que será uma campanha ruim. Porque no final das contas, só as promessas mais comedidas acabam se tornando realidade. Se o candidato apresentar só aquilo que dá conta de fazer, o povo realmente acreditará nele e, com isso, a cidade é quem ganha. Em meio a um cenário de incertezas, uma coisa é certa: toda baixaria será castigada. Quem chegar na disputa pensando apenas em jogar pedras pode se preparar para entrar para a história como mero coadjuvante.

 

 

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