Home Opinião Siglas… apenas siglas!, por Orisvaldo Pires

ORISVALDO PIRES

As negociações políticas dos últimos meses em Anápolis, que desaguaram nas composições definidas pelas convenções realizadas esta semana, são exemplos claros da falta de compromisso dos partidos com as questões programáticas e com a linha ideológica. No país que caminha para atingir em breve a marca dos cinquenta partidos políticos em atividade, as siglas ainda insistem na prática do leilão. Soltam o corpo e se deixam levar pela maré mais forte, sem se importar para onde são levados.

No estágio atual da conjuntura político-partidária é inadmissível que um partido político em Anápolis ou mesmo em Goiás fique indeciso sobre apoiar partidos que têm ideias antagônicas, caminham por trincheiras opostas, acreditam em projetos distintos. Ou se aposta em um, ou em outro. Mas jamais ficar indeciso sobre ir para um lado ou para o outro. São partidos sem identidade, sem alma. No entanto, muitos partidos agem exatamente assim, se esquecem de agir de forma coerente com seus princípios estatutários e programáticos. Se é que sabem o que isso significa.

As leis que regem os partidos políticos no Brasil permitem que siglas adversárias no âmbito nacional caminhem juntas nos estados. E que partidos adversários no âmbito estadual façam parcerias nos municípios. É uma prática comum, que na maioria das vezes goza até mesmo da anuência das próprias lideranças partidárias. No entanto, algumas vezes a insubordinação de diretórios e comissões provisórias nos municípios rendem intervenção e até dissolução, para assegurar que no âmbito local seja obedecida a orientação verticalizada para apoiar ou se opor a um determinado grupo político.

Essa história que diretórios municipais têm total liberdade para articular suas alianças locais, mesmo que contrariem o comportamento partidário nos âmbitos estadual e nacional, é ‘meia verdade’. Esta condição é suportada apenas até o ponto em que comece a interferir em interesses maiores, que envolvem ajeitamentos políticos normalmente vinculados a projetos eleitorais futuros. As decisões sobre as composições partidárias para a disputa das eleições municipais, por exemplo, estão ligadas aos entendimentos esperados para o pleito estadual de daqui a dois anos. Apoiar um projeto agora, pode significar receber apoio depois.

Numa eleição em que o teto para gastos é menor que nos pleitos anteriores, em que é proibida a doação financeira de empresas a partidos ou candidatos e em que o tempo de campanha ficou mais curto, é essencial ter tempo maior na propaganda do rádio e da TV. O palanque eletrônico é cada vez mais forte e decisivo, considerando a força da comunicação de massa. Esta situação, claro, impõe aos partidos que busquem apoio, independente de quem seja, para aumentar sua fatia no bolo da divulgação.

Assim, muitas siglas ficam expostas no mercado e se oferecem a quem traz maior vantagem. Os partidos mais fortes cooptam os menores interessados mais no tempo que trazem que empolgados com sua força eleitoral. Enquanto este modus operandi existir, enquanto uma reforma partidária séria não chega, vamos conviver com a política do fisiologismo e da prática danosa daqueles que trocam a qualidade pela quantidade.

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