Home Opinião Eduardo Cunha: do paraíso ao inferno | por João Aquino

A prisão preventiva de Eduardo Cunha, ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, decretada pelo juiz federal de Primeira Instância Sérgio Moro, ocorrida na quarta-feira, dia 19 de outubro, executada pela Polícia Federal, é um exemplo claro de que o crime, para quem ama a liberdade, realmente não compensa. Para muitos que acompanharam a saga de Cunha, pode parecer que a vida glamorosa que ele viveu, principalmente na última década, tenha valido a pena, mas, imagino, ser privado de sua liberdade de ir e vir e ainda ser execrado publicamente, não há dinheiro no mundo que pague. Ficar numa cela com um beliche, uma pia, um vaso, uma mesa e uma cadeira; depois de ter se hospedado num hotel considerado sete estrelas em Dubai, nos Emirados Árabes, além de ter que alimentar-se de um marmitex comum, depois de ter pago 1.200 dólares num jantar no Restaurante Joes Stone Crab, em Miami – EUA; deve ter levado ele a algumas considerações sobre a vida e as riquezas materiais.

Eduardo Consentino Cunha circulou no meio político, como um articulador hábil e agressivo em suas ofensivas para conseguir o que queria. Ele começou a sua caminhada rumo à Curitiba em 1982, na campanha de Eliseu Resende para governador de Minas Gerais. Em 1986, trabalhou na campanha do atual Secretário-Executivo do Programa de Parcerias de Investimentos, do governo Temer, Moreira Franco para governador do Rio de Janeiro. Mas, foi pelas mãos de Paulo César Faria, o PC Farias, que ele tornou-se presidente da Telecomunicações do Estado do Rio de Janeiro (Telerj), no governo Collor e já teve a sua primeira experiência no mundo da corrupção, ao ser acusado de fraudar licitações e ser defenestrado da empresa.

Cunha passou um tempo amoitado na iniciativa privada, onde tentou a sorte na Bolsa de Valores e também foi consultor de empresas. Não aguentando ficar longe da vida política, em 1995 filiou-se ao PPB, presidido por Francisco Dornelles, que era deputado federal pelo Rio de Janeiro e Ministro da Fazenda do governo Sarney. Apadrinhado por um poderoso empresário carioca, em 1996, Cunha foi indicado para presidir a Telerj, já no governo Fernando Henrique Cardoso, e ficou lá, mesmo debaixo de mais denúncias de corrupção, até a empresa ser privatizada em 1998.

Sempre oportunista, logo que deixou a Telerj, Eduardo Cunha aproximou-se de Anthony Garotinho, então governador do Rio, em 1999, e foi indicado para presidir a Companhia Estadual de Habitação e mais uma vez a sua gestão foi conturbada e com diversos indícios de corrupção. Mas, Cunha já era suplente de deputado estadual e o governador Garotinho, para livrá-lo das investigações do Ministério Público, deu um jeitinho de ele assumir o mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Eleito com mais de 100 mil votos para deputado federal em 2002, Eduardo Cunha estreou em Brasília e aproveitou para filiar-se ao PMDB, ficando no baixo clero da Câmara dos Deputados até o final do mandato. Porém, em 2006, Cunha foi reeleito deputado federal e estava disposto a mostrar a que veio e logo conseguiu ser Relator do projeto que prorrogava a CPMF, quando seu estilo revelou-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi obrigado a nomear um aliado de Cunha para a presidência de Furnas, se quisesse que o projeto continuasse tramitando, mas a demora custou a rejeição da CPMF.

Sentindo-se forte por ter conseguido uma vitória frente ao presidente da República, Eduardo Cunha então começou a armar sua rede de apoios, seja através da cooptação de deputados do baixo clero com cargos em comissões temáticas na Câmara ou, posteriormente, oferecendo apoio jurídico e financeiro nas campanhas eleitorais de centenas de candidatos a deputado federal Brasil afora.

Em 2009, Eduardo Cunha já era macaco velho e impôs, através de seu séquito fiéis seguidores na Câmara e manobras regimentais, a manutenção dos recursos distribuídos através de royalties aos estados produtores de petróleo, como é o caso do Rio de Janeiro. Marcou pontos com o eleitorado e voltou à Câmara com mais 150 mil votos e tornou-se líder do PMDB. Ainda em ascensão, em 2014, Eduardo Cunha obteve 232.708 para deputado federal e continuou sua voraz busca pela conquista do poder.

Eduardo Cunha atinge o auge da sua trajetória política em 2015, ao derrotar Arlindo Chinaglia, candidato oficial à presidência da Câmara do segundo governo Dilma Rousseff. Ganhou e não foi bem digerido, começando a guerra entre ele, o PT e a presidente da República. As pautas-bombas e a admissão do processo de impeachment foram as consequências da resistência fatal do PT e partidos aliados ao governo Dilma de votarem a seu favor no processo que já corria na Comissão de Ética, que culminou na cassação do deputado Eduardo Cunha. O resto todos já sabem.

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