Home Opinião Aqueles que ficaram em nossas lembranças | por Iron Junqueira

Esta manhã está maravilhosa. Choveu à noite e a manhã exibe um fresco véu de paz e felicidade, oferecendo a todos horas de alegria e bem estar.

Faz-me lembrar tanta gente querida que conviveu comigo, que representavam amizade sincera e amizade tão evolvida que, num momento quanto este, nos faz lembrar suas pessoas…

Lembro-me de Dona Neném, sempre alegre nesse outubro chuvoso, abraçando a gente, com seu sorriso franco e alegre, sua fala mansa e seu afeto, apesar de dirigir-se a nós pela direção da voz e com seus braços abertos para nos achar, uma vez que ficara cega.

Recordo-me do mano Moacir, por quem já briguei na escola vezes sem conta. Pela sua generosidade com os necessitados. Sem nada dizer a ninguém, trazia seus sofredores das fazendas da Encol, onde trabalhava. Uma vez era o Chimbica, velho motorista da empresa com vários problemas; o Valdeci, negro intelectual, de óculos, magrinho, educado, que o servia no escritório; e uma bela senhora, muito nova que, numa das fazendas, tentou o suicídio, metendo um tiro de espingarda na boca tendo mutilado o seu rosto pondo à mostra a arcada dentária; seu Nelson e tantos outros funcionários do Sr. Pedro Paulo que — tenho certeza — nem ficava sabendo dessa assistência social que o Moacir Junqueira prestava sempre, tendo o Lar da Criança Humberto de Campos por hospedaria a esse pessoal todo. Depois de curados ou solvidos os seus problemas, o mano os levava de volta às lides rurais onde militavam.

Vem-me a lembrança do Osair. Com quem eu evitava conversa longa devido à sua sensibilidade e assuntos profissionais, dele, dos quais eu não entendia. O mano velho, porque antes de mim; vem em seguida a choradeira do menino Alvito, incapaz de ofender, de brigar e sempre às avessas às litigiosidades; o Elio cuja lembrança maior foi quando ele estudou no Ginásio Anchieta — neste colégio — era o Alvito, o Elio e eu.

Faz-me lembrar da Deli Batista, boníssima companheira de ideal, trabalhou no Lar durante sua construção; fez programa na Rádio Cultura, em minha companhia; e houve momentos tão difíceis e bonitos que, muitas vezes, quando chegávamos na casa de Dona Neném, só havia um prato de arroz no forno para ser repartido por quatro pessoas. Então, ao passarmos pelo Mercado Municipal Carlos de Pina, logo eu pedia aos amigos donos de bancas, que me dessem dois tomates…

Chegando a casa, a Deli pegava o arroz no forno, comprimia-o no prato para que ficasse firme; em seguida, pegava os dois tomates e os partia ao meio ficando quatro partes: uma para cada um. Ela com a faca de mesa cindia o arroz com uma cruzeta ao meio, separando as partes; sentávamos à mesa e íamos almoçar; o Baiano (José Manoel Moreira); o Joãozinho (menino) João Alves; a Deli e eu.

Era um manjar dos deuses! Tanta a felicidade.

Deli se foi para o Plano Mais Alto, aos 22; o Baiano também, aos 61 anos. Penso. O Joãozinho virou enfermeiro na Cemina e nunca mais soube dele; senão que crescera, casara e fora trabalhar como enfermeiro no Daia.

Saudade… Hoje da Dona Francisca Alves Pires, a querida Tia Chica de todos nós, enfermeira e parteira aqui no Lar HC; tudo nela demonstrava o quanto fora bela na sua juventude; pouco tempo vi no Facebook uma foto que o Reneval me mandou: ela segurando ele, seu filho, quando era bebê; foi quando a conheci na sua juventude, por esse retrato.

O mundo é bem assim. Um dia o cupido bateu em seu coração e ela mudou-se para Estrela do Norte, aonde viveu algum tempo feliz, veio a óbito acometida por uma doença na cabeça. Que saudades, deixou…

Falando em saudade num dia como esse… Estranho não sofrer a ausência física de duas filhas biológicas que tive, que vieram a falecer aos 2 anos de idade — Marcela — acometida de encefalia; e Ellen, de 3 anos, em função de um acidente entre um carro e o ônibus da TCA. Penso que não me causou sofrimento a ausência dessas filhas porque foi com a diferença de 24 meses dos dois desencarnes, e que foi uma época de muito trabalho — e suas ausências não foram sentidas por mim porque ambas, tinham, já, reencarnado, segundo recado que nos dera elas próprias através de meios que os espíritos têm de se comunicarem conosco, — e por estarmos todo o grupo bem ocupado com mais de 200 crianças sob os nossos cuidados.

Saudade… Não, raramente a sinto. Num dia que foi lindo, horas antes, é sentimento raro em mim.

Alguém disse que quanto mais a gente vive mais vai perdendo talentos, habilidades e sentimentos pelo caminho. No entanto, muito parcamente, sinto momentos felizes.

Não me lembro de haver chorado por tristeza ou motivo algum. Deve ser pela forma de eu pensar ou encarar a minha realidade.

Nem as profundas preocupações não me incomodam mais. As pessoas não conseguem me aborrecer pelo fato de eu evitar aborrecimentos.

Se alguém se aparta da minha vida, siga em paz e vá com Deus. Não leve mágoa nem inimizade quanto a mim. É só o que peço. No entanto não peço para ficar nem impeço de ir. Cada qual de nós passamos pela vida, um do outro, até o momento certo e necessário. Findo o propósito de convivência, acaba-se o compromisso, e cada qual segue seu caminho…

Linda manhã esta de hoje. Todo amanhecer devia ser assim… Bom, agradável, e que traga um tom de saudade pra gente sentir que conviveu com quem nos levou no coração e com aqueles que ficaram em nossas lembranças.

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