Home Opinião O que passou, passou | por Iron Junqueira

Joel e Gilda era um casal feliz, dois filhos, ainda pequenos.

No jogo da vida resolveram mudar de cidade. Foi para o norte do estado. Gilda, muito falante e de natureza bastante social, os políticos viam nela alguém que seria ótima representante parlamentar.

Devido às correrias e muitas viagens e responsabilidades de Gilda, agora politica, o marido assumiu, praticamente, o comando da família e os compromissos da casa, cuidando, quase que só, da educação dos filhos.

Com o rolar do tempo a companheira não achava prazo para ficar o suficiente em casa.

Era reunião aqui, compromisso acolá — e chamativos partidários uns após outros.

Joel reclamava, mas de nada valia suas lamúrias.

Via que a política não era um caminho honesto e tentou tirar a esposa do perigo dessa fornalha de ambição.

Não adiantou.

Um dia a verdade apareceu, explícita, diante do esposo, e grande foi a decepção e o desespero dele.

Desentenderam-se e resolveram a questão diante das mesas judiciárias.

Combinado com o Juiz, Joel deixou a casa e todos os pertences do casal só para ela.

Desde que levasse os filhos para educá-los a seu modo.

Mudou do norte do estado e foi para Goiânia, onde morava com os filhos, os mantinha na escola e trabalhava de vendedor numa grande firma, onde era conhecido pela sua eficácia profissional.

De quando em vez Gilda vinha de sua cidade no norte, e toda vez Joel tinha que mandar os filhos descer para a sala especial do prédio onde ele tinha um apartamento.

E essa rotina prosseguiu por longo tempo. Joel alimentava profundo rancor à ex-esposa pela traição que ela lhe causara. Sofria com aquilo.

Quando ela se despedia dos filhos a quem fora visitar, ele remoía o ódio no coração.

Um dia foi convidado por um amigo a ir a um Centro Espírita. Deixou os filhos com um vizinho de confiança e foi à sessão assistir ao trabalho.

Ninguém no prédio nem no trabalho sabia do seu problema. Nem mesmo o amigo que o convidara à sessão espiritual.

Lá estava participando da comunhão fraternal, quando um médium o chamou à sua frente e, incorporado por uma entidade, lhe disse:

— Sou o Frei Inácio de Loiola e venho lhe dar um recado importante…

Ódio no coração, nunca.

Esse sentimento só lhe traz sofrimento e piora sua vida.

O que sua ex-companheira lhe fez é comportamento ligado às fraquezas do ser humano, na vida.

O ódio faz parte do mundo. Mas não é recomendável tê-lo no coração. Vou lhe receitar um excelente remédio…

Ao lembrar-se dela, ao invés de odiá-la, dá-lhe o dom do perdão…

— Ah, não sou capaz de perdoá-la…

— Então, disse a entidade através do médium — ore 30 vezes ao dia pedindo força a Deus para você perdoá-la…

— Nossa! Exclamou Joel.

— 30 vezes ao dia até um dia você conseguir perdoá-la…

Porque sem o perdão você não consegue nada na vida. E somente a oração lhe dará força para perdoar e o perdão vem do amor. Pode ir para sua casa, mas ore, no mínimo, 30 vezes ao dia, pedindo condição para perdoar. Porque, sem perdão, não há solução…

Joel foi para sua casa, acompanhado do amigo, mas insatisfeito com a recomendação. Era sacrifício demais de sua parte e ela, nada? Reclamou.

— Mas ela não está com tanto ódio quanto você! Explicou o amigo, enquanto chegavam em casa.

À porta do seu prédio os dois amigos se despediram e cada qual buscou sua residência.
Joel levou sua vida e, de início, não deu atenção ao que lhe falara o Guia Espiritual.

— Balela! Resmungava ao lembrar-se do recado de Dom Inácio. Mas certo dia estava com tanta raiva da esposa que lhe impusera tanto sofrimento, além de cuidar da educação, roupa, estudo dos filhos; até cozinhar para eles dependia dele.

Percebeu que sua ira pela antiga companheira o incomodava demais e começou, enquanto fazia qualquer serviço, a orar a Deus em favor dele mesmo, porque tanta raiva, de fato, tirava-lhe toda paz. 30 orações por dia? Mas virou hábito em sua mente. Em vez de ficar pensando tolices, orava, orava…

Já nem notava e estava pedindo a Deus que o livrasse de todo mal. O tempo passava e Joel com seu novo costume.

Um dia ele pintava a parede do seu apartamento quando o interfone chamou:

— Alô? Atende.

— Ela está aqui. Quer ver os filhos. Era o porteiro.

— Sabe… Mande-a subir!

— Mesmo? Não vai brigar? Quer realmente que ela vá?

— Sim, fique tranquilo. Estou bem.

— Então — disse o porteiro Joaquim — segura a barra aí que a fera vai subir…

Voltando-se para Gilda, Joaquim lhe falou:

— É para a senhora subir, que os meninos a esperam.

— Uai, mesmo?

— Eu conheço a voz dele, madame.

Ela foi. Subiu não sei quantos andares. A porta estava aberta e os filhos a receberam abraçando-a…

Quando Gilda foi cumprimentá-lo, Joel, de braços abertos,disse-lhe:

— Entre, deixe eu lhe dar meu abraço…

— Mas, o que houve?

— Nada não. O que passou, passou. Creia, não tenho mágoa de você. Nem ódio. Sente-se e fique à vontade com seus filhos.

Isto já vai para 15 anos. Hoje são separados ainda, mas nada os impede de conversar, serem amigos, e nunca mais odiar ninguém.

Vale a pena se esforçar para abdicar-se do ódio em favor da fraternidade, do amor e da felicidade e estas bênçãos só o perdão pode prodigalizar-se aos nossos corações.

Perdão, porque… O que passou, passou.

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