Home Opinião A mídia com suas versões e vítimas | por Letícia Jury

Quando o compositor Belchior faleceu, a revista Época reeditou uma reportagem sobre ele de 2013 que tinha como manchete “A divina tragédia de Belchior” e com o subtítulo em destaque: “procurado pela polícia e hospedado de favor na casa de fãs, o compositor de clássicos como ‘Divina comédia humana’ protagoniza uma história de amor e decadência”. Um texto extenso em que narra em detalhes, logo no início, a personalidade da sua companheira – Edna Prometheu, que segundo a matéria é “morena, de cabelos encaracolados e baixa estatura, não é uma mulher de beleza estonteante. Militante de organizações de extrema-esquerda, é definida por seus amigos como idealista utópica”.

Com julgamentos explícitos a matéria diz que após conhecê-la: “a vida plácida de Belchior derrapou no trevo a 100 por hora” e que para ficar com Edna, “ele abandonou a então mulher, Ângela, com quem estava casado havia 35 anos, mãe de dois dos quatro filhos que tem. Afastou-se dos amigos e foi gradativamente deixando de fazer shows, até sumir sem dar explicações, em 2009”. A revista trouxe inclusive um depoimento do ex-empresário de Belchior que não mediu as palavras e chamou a sua companheira de “figura nefasta” que estaria fazendo “uma lavagem cerebral nele”.

A matéria é toda depreciativa. Talvez o objetivo fosse mesmo denegrir a imagem do cantor, pois se apropria de expressões como “desaparecimento de Belchior”, “ninguém poderia esperar tal atitude”, “ele deixou tudo para trás”, “aos 67 anos ele vive escondido”, “contra Belchior há dois mandados de prisão”, “o mais intrigante na espantosa história de Belchior” e por aí vai a quantidade de termos utilizados pelo repórter para construir a sua narrativa extensa, que apresenta os locais por onde o compositor morou desde o seu ‘suposto sumiço’.

No entanto, na última quarta-feira, dia 10, uma matéria na Folha de São Paulo me chamou a atenção: “Amigos contam da vida de Belchior no Uruguai, onde ele se refugiou em 2009”. Embora a palavra ‘refugiar’ contida no título tem os significados de “retirar-se para um lugar onde haja segurança e proteção, exilar-se, expatriar-se”, a matéria contradiz a que foi publicada pela revista Época. O jornalista Néstor Curbelo enviou um texto ao jornal brasileiro em que narra a chegada de Belchior e de sua companheira a San Gregório de Polanco no Uruguai e fala de forma positiva da estadia dos mesmos na região.

O depoimento colhido para a matéria foi de César Caétano, proprietário de um complexo de bangalôs (chalés) para turistas, em que ele narra que não conhecia o compositor (quando o mesmo chegou para se hospedar), mas outro amigo lhe disse que se tratava de um famoso cantor brasileiro. O entrevistado narra os jantares, os momentos agradáveis que passaram juntos à sua família, sobre a cultura de Belchior, sobre livros, músicas e aspectos positivos da sua personalidade, como sendo uma pessoa culta, amável e simples. “Ele sentava na varanda e escrevia a mãos nos cadernos”, contou Caétano.

Uma parte interessante da entrevista é quando Caétano diz que não entendia porque a imprensa brasileira afirmava que Belchior era “alguém em fuga”, pois ele falava muito dos filhos, tinha contato telefônico com eles, e apenas destacava que não queria viver “aquela dimensão da fama que o acompanhava”. Ele narra inclusive um passeio a Riviera em que os fãs o reconheceram e não puderam entrar no barco. Naquele momento, Belchior havia reclamado com os amigos que “aquilo não era vida”. Segundo César Caetano, Belchior não vivia “clandestino como a mídia brasileira destacava”.

A entrevista na Folha de S. Paulo se encerra com o depoimento do amigo de que quando a mídia descobriu que Belchior estava no Uruguai, equipes de reportagem foram em todos os chalés em busca de entrevistas. Dias depois, o casal decidiu se mudar para o Rio Grande do Sul e, conforme a reportagem, “deixou saudades nos amigos uruguaios”.

Comparar as duas matérias é falar sobre a análise crítica que nos exige a leitura da mídia. É recordar das aulas teóricas de jornalismo em que os professores nos orientavam a ouvir vários ‘lados’ de uma história antes de se escrever um textos. Mas não podemos nos esquecer do caráter ideológico dos textos jornalísticos em que os discursos são para reafirmar um sistema, por exemplo, ou lutar contra ele, a hegemonia e contra-hegemonia. No caso das duas matérias isto fica visível, enquanto uma tem como proposta denegrir a imagem do compositor, a outra tem de ressaltar suas qualidades pessoais e profissionais. Enfim, é a mídia com suas versões e suas vítimas. Cabe a nós fazer a leitura correta!

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