Home Cidades “Todo motorista que dirige embriagado ofende a vida”, diz delegado

Delegado diz que pobre ao ser abordado por dirigir bêbado sabe que está errado; já o rico é “nojento”

ANA CLARA ITAGIBA

Durante a madrugada do domingo (28), entre zero hora e 5 da manhã, aconteceu uma operação da Delegacia de Investigação de Crimes de Trânsito de Anápolis, com o intuito de flagrar pessoas que dirigem embriagadas. No total foram quatro policias na operação, que conseguiram flagrar 16 pessoas conduzindo veículos sob o efeito de álcool. A reportagem do JE conversou com o delegado Manoel Vanderic Correa Filho, responsável pela especializada, sobre esse tipo de trabalho em Anápolis.

Como foi a operação no último sábado?
A ideia é que fosse na cidade toda, mas a embriaguez ao volante está tão disseminada e é tão contumaz que nós não conseguimos nem sair próximo à delegacia. Todas as vezes que nós retornávamos para deixar um condutor embriagado, para a equipe e os escrivães formalizarem o procedimento, quando nós saíamos na esquina já nos deparávamos com outro motorista dirigindo de forma perigosa e embriagado. Então essa operação ficou centralizada no Jundiaí, no Bairro JK e em suas imediações, mas a ideia é que todos os bairros sejam atingidos. É que a nossa equipe é muito pequena, foram só duas viaturas, com quatro policiais ao todo. Na madrugada, por volta das 3h, 4h da manhã, nós abordamos 16 motoristas embriagados. Agora imagina se a gente tivesse dezenas de viaturas? Encheríamos um ônibus. É todo mundo, é incrível a disseminação da embriaguez.

Qual será a frequência desse tipo de operação?
Agora vai ser semanal. A Delegacia de Trânsito começou a funcionar em novembro, só que era novidade aqui em Anápolis, e até na estrutura da Polícia Civil. Só tem uma em Goiânia e lá é só a Delegacia de Trânsito, mas aqui nós acumulamos, além do Trânsito, o Idoso, o Deficiente, o Consumidor e o Meio Ambiente – tudo na mesma equipe. Então eles têm a possibilidade de fazer uma operação à noite e no outro dia de manhã os policiais terem a folga legal. Só que aqui não. Nós trabalhamos a noite e no outro dia temos que estar aqui às 8h para atender os idosos agredidos. Isso depende de uma autorização administrativa com a organização de um banco de horas para que esses policiais trabalhem sendo regularmente pagos para tal, já que não podem ter a folga no outro dia. Agora foi regularizado para termos um planejamento para pelo menos até o final de julho [as operações] serem semanais, de quinta a domingo, em dias e horários não especificados para as pessoas não saberem. Se bem que o povo não quer nem saber também, pode estar a blitz ali do lado que o povo está enchendo a cara e sai dirigindo.

Existe um perfil dos flagrantes?
Não, é disseminado. É preto, branco, pobre, rico, empresário, mecânico, carro de R$ 200 mil a carro de R$ 10 mil. É generalizado, as pessoas banalizaram. Tem todo tipo de gente, agora o que diferencia é que o pobre é muito mais educado. O pobre ao ser abordado sabe que está errado e sabe que a polícia está fazendo o seu trabalho. Já o rico é nojento para você trabalhar. Ele acha que está acima da lei, que ele tem curso superior, que ele tem dinheiro, então ele não pode ser incomodado pela polícia. É impressionante o perfil. Quando a gente vê que é um rico dirigindo e tem que abordar, já até dá dor de cabeça porque a gente sabe que vai dar problema. Eles não aceitam.

Era justamente esse o próximo questionamento. Qual o comportamento deles perante a lei?
As pessoas acham que dirigir embriagado é um direito, porque ele paga os impostos, que ele está no carro dele e que ele tem o direito de beber. As pessoas ainda não dimensionaram o risco que é beber embriagado. É importante ressaltar que a minha preocupação aqui não é a arrecadação estatal. Eu não estou preocupado com o IPVA atrasado, com carro licenciado, com multas atrasadas, esse não é o meu foco. Nós estamos preocupados com os motoristas embriagados. No ano passado, mais de 60 pessoas morreram em Anápolis no trânsito e a maioria dessas mortes tem um vínculo com a embriaguez ao volante. Foram registradas na polícia mais de 600 pessoas que ficaram lesionadas no trânsito. Teve gente que perdeu a perna, que ficou paraplégico e isso são estatísticas da Polícia Civil. Eu vi uma reportagem do Hospital de Urgências de Anápolis, que mais de 4 mil atendimentos de acidentados no trânsito que eles receberam de Anápolis e região. E eu aposto com você que de 60% a 70% está vinculado ao uso de álcool. Então não é uma questão de política estatal, nem de mídia, nem de marketing institucional. É uma questão criminal mesmo, de você poupar vidas. São pessoas que se a gente não abordar aqui, vão matar outro ali na frente.

Os casos estão se agravando, apesar das campanhas e da repressão?
As pessoas estão dirigindo com o teor alcóolico muito elevado. É de 1,5 a 1,30, teor que a pessoa não consegue nem ficar em pé. Nós abordamos uma pessoa aqui na Avenida Jamel Cecílio na última operação, que mal deu conta de achar a porta do carro e abrir, mas saiu dirigindo. Imagina se passa um ciclista ou um pedestre na frente? Seria morte na certa. Eu tenho a consciência muito tranquila em relação a prender essas pessoas porque são criminosas. Eu ainda acho que são criminosos que merecem a cadeia muito mais do que ladrões e assaltantes. Porque esses ofendem o patrimônio da pessoa, já o motorista embriagado ofende a vida. Se ele consumar o crime dele, vai matar. Não é um celular que ele vai tomar, então ele merece a cadeia sim.

Qual o comportamento dos familiares quando ficam sabendo do flagrante?
É revoltante. Eu devia filmar para vocês verem. É por isso que incita. Grande parte dos que foram presos são jovens de 20 a 25 anos, universitários, que estavam com o carro dos pais, o famoso playboy aprontando na madrugada. A família chega aqui e coloca no colo, é coitadinho. Fica revoltada com a polícia, como se nós tivéssemos agredindo o filho dele. Uma mãe me falou: “você tem coisa mais importante para fazer, vai prender bandido, meu filho é universitário!”. Ai eu falei: “mas estava praticando crime!”. A gente não julga a pessoa, julgamos a conduta dela. Quem pratica crime é criminoso; dirigir sob efeito de álcool é crime. As famílias ficam indignadas com a polícia, 90% delas, que acham que esse é um trabalho que a polícia não devia fazer.

E essa atitude enérgica é fundamental em uma hora dessas?
Demais. Porque por exemplo, dois na última semana foram menores de idade que estavam dirigindo sem habilitação o carro do pai, com o aval destes. Nesse caso, tem um crime até para o pai. Permitir que uma pessoa sem habilitação assuma a direção é crime, então além do menor ser responsabilizado por cometer um ato infracional, o pai também comete crime, e ele vai responder.

Qual a punição?
Hoje a tolerância é zero, qualquer teor de álcool é crime. Nós abordamos 16 embriagados, então todos eles receberam uma punição administrativa, que é a apreensão da CNH. Depois eles vão perder o direito de dirigir e terão a multa por embriaguez, que depois vai chegar em sua casa, que é de mais ou menos R$ 3 mil. Agora aqueles que foram presos por embriaguez, além dessa penalidade administrativa, só sai da delegacia se pagarem a fiança. A fiança gira em torno de um até 100 salários mínimos. Isso varia de acordo com a capacidade econômica do preso. Mas mesmo assim ela vai responder o processo criminal. Tem uma série de consequências.

E o bafômetro?
As pessoas acham que não são obrigadas a soprar o bafômetro, a maioria recusa. Só que hoje a legislação mudou. É muito importante ressaltar para a população que acontece na maioria das abordagens, as pessoas dizem: “Eu não vou soprar, eu não sou obrigado a produzir prova contra mim mesmo”. Realmente, só que o bafômetro hoje é uma garantia para o motorista. Hoje se você abordar alguém que está com o olho avermelhado, hálito etílico, agressivo, falta de coordenação motora, você vê que ele bebeu, porque é nítido. Não precisamos do bafômetro, para prender. Se ele recusar soprar, será preso em flagrante, independente do teor, porque a única forma de medir o teor é o bafômetro. Agora, se ele soprar o bafômetro e der abaixo de 0,34, é só uma infração administrativa, só a multa e não será preso. Então o bafômetro hoje é uma garantia para o motorista. Se ele soprar, ele ainda tem a oportunidade de provar que o teor está abaixo de 0,34 e vai receber só multa. Se recusar, vai ser preso de qualquer forma.

O senhor percebe que há muitas críticas quando vocês fazem esse tipo de operação, principalmente dos donos de bares?
Nossa, demais, eu sou odiado por donos de bares. As primeiras que nós fizemos em dezembro, eles fizeram comitiva e eu sei que chegou reclamação até no governador do Estado pedindo para me afastar da delegacia. Mas é importante ressaltar que vender e beber bebida alcoólica não são crimes. As pessoas podem beber. Você me perguntou como é a abordagem antes da entrevista, nós não abordamos. Nós só abordamos quem está dirigindo veículos em movimento. Beber não é crime, a pessoa pode beber até entrar em coma alcoólico, que é um direito dela. O que ela não pode é assumir a direção, porque ela estará colocando em risco a vida das pessoas. Os donos de bares, teoricamente não seriam afetados por isso, porque a pessoa pode beber e chamar um táxi depois ou pedir para outra pessoa dirigir. Mas a crítica é enorme.

Falam em exagero do senhor…
Alguns setores da imprensa acreditam que isso é marketing institucional ou pessoal. E eu descarto isso, porque eu tenho uma consciência muito tranquila, porque todas as mortes de trânsito, os familiares sentam aqui na minha frente. É muito triste você ver a consequência do álcool. Eu vejo diretamente e é por isso que eu tento combater de forma rigorosa. Eu penso que ao abordar uma pessoa hoje, é uma vida que está se poupando. Sempre me pergunto quando tem uma mãe sentada na minha frente chorando a morte do filho por conta de um motorista embriagado, que se eu tivesse abordado ele antes, talvez essa morte não teria acontecido. Então é um dever meu porque a lei impõe. Não é a minha vontade, é a legislação. Eu vi algumas críticas e comentários, dizendo que eu faço isso porque eu quero ser candidato a deputado. Eu não vou ser candidato nem a síndico, porque eu detesto política. Eu recebo muito mais aqui como delegado, do que como vereador ou deputado. Então porque eu vou lagar um trem para fazer outro? Eu gosto de fazer é isso aqui, eu não preciso de marketing. Mas infelizmente esse trabalho acarreta isso, é um mal necessário. A gente precisa mostrar para a população que essa consciência coletiva de que dirigir embriagado é comum, é normal, na verdade não é. A imprensa é importante para isso. Eu ainda preciso ressaltar: não vou ser candidato nem hoje e nem amanhã.

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