Home Opinião O outro em si mesmo | por Rubens Júnior

Magicamente ou mecanicamente somos incentivados a supervalorizar tudo que fazemos, mais ainda, na cultura moderna, o foco é o ter, possuir, agregar, ajuntar; pensamos no que somos capazes de obter empenhando o máximo de esforços, concentrando-nos nos benefícios. Até aqui nada novo.

Também, o que seria do mundo se findasse a perspectiva, a emoção da conquista? Certamente a motivação seria sepultada pelo marasmo, consumida pelo frio do tédio, perderia o cintilar da alegria do encontro e a possibilidade de obtenção do objeto de desejo. Tudo muito romântico.

E onde está o “outro” da história? Se nos interessamos apenas em “nossas” satisfações, no “meu” equilíbrio, fuga das “minhas” necessidades, pensando “comigo mesmo”.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, trouxe já no século XIX, ano 1818, a conjectura do ser, o qual não é exterminado, exaurido, consumado com o fim do corpo físico, mas permanece. Nesse contexto, Schopenhauer manifesta sua teoria, revelando em sábias palavras “o homem melhor é aquele que faz a menor diferença entre si e os outros”.

Para alguns, mais “acostumados” com a palavra, discurso, soaria comum; apenas uma frase dita ao vento, como um sorriso que se monta e é desmontado com facilidade, algo simples e corriqueiro, não mais que isso. Para “outros” revela a condição mais óbvia, relutantemente existente em cada ser. O que penso que sou não é nada comparado ao que o outro pensa de mim. Ou ainda, simplificando a análise do discurso do filósofo e linguista francês, Michel Pêcheux, o que eu penso de mim, o que penso que pensam de mim e o que o outro realmente pensa de mim.

Não sou filósofo, nem me atrevo ao absurdo de tomar as rédeas indomáveis do pensamento humano, pego carona na advertência trazida pelos mestres, que viveram e vivem para fazer-nos pensar, criar, refletir. E peço aos mestres humildemente, permitam-me gozar da mínima faísca da vossa Sophia, para utilizar tal trecho de Schopenhauer, a fim de afirmar que, a necessidade do “outro” é intrínseca ao nosso ser, de forma inseparável da existência, mais que possamos imaginar.

O outro nos constrói de forma multifacetada, seja em sentimentos, conhecimento do universo, indistintamente, leva-nos ao mundo do autoconhecimento, preenche e equilibra pensamentos, intenções, até mesmo, abate arestas de nossa personalidade. Vejamos quão importante é o “Outro” nessa história.

É o outro e mais ninguém, o agente reparador; em todos os sentidos que permite a Língua Portuguesa; aquele “eu” que está fora de “mim”, crítico silencioso, o qual avalia minhas atitudes, mesmo que eu não perceba que as tome. Um espelho vivo da minha imagem mais íntima, da representação que mantenho diariamente.

Sejamos honestos, ninguém gosta de ter alguém avaliando seu comportamento, principalmente em todo tempo. A vigilância nos incomoda, mesmo que seja em nossa proteção.

A vida nos deu de presente o termômetro externo de nosso Ego, se chama “outro”, e para nossa segurança, precisamos notá-lo e absorvê-lo para nosso bem. Chamando-o para compor nossas vidas, resgatando o valor do respeito ao ser humano que TODOS somos, percebendo a nossa interdependência.

Rendo-me aos baluartes do conhecimento acadêmico, para as mais diversas análises pormenorizadas do conceito usado nesta exposição. Admito também, fazer parte da construção, estou em construção, e que, não seria normal, obviamente, se todos concordassem com o exposto, haja vista que seria um paradoxo.

Por fim, a reflexão iniciada é que, o ser humano não vive sem a manifestação de um interferidor transcendental, expressão utilizada por C.S.Lewis. Ao avançarmos, percebemosque não há em nós, algo tão especial, que não encontraremos no outro.

Rubens Júnior é radialista e assessor de imprensa

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