Mudanças, para mim, são sempre dolorosas. Eu não sei traduzir o que significa uma mudança. Ou melhor: não sei traduzir porque uma mudança me causa tanta dor. Uma coisa melancólica e fina. Mas causa. São perdas, talvez? É possível, até porque em um nível ou outro, uma mudança por mais que represente um ganho, é um ganho em cima de algo que se perdeu.
Ficou complicado? Não, não ficou. Pense na sua própria vida que você vai perceber que todas as mudanças que viveu, mesmo as melhores e que fizeram a sua vida melhor, tiveram nelas coisas que ficaram para trás. E eu me desfiz de algumas coisas que me deixaram melhor, hoje, do que estava. Mas a dor do parto é dolorida, apesar de linda e perfeita.
A verdade é que as mudanças vão nos arrancando lascas. As mais pessoais, sentimentais e amorosas, e as profissionais, as meramente circunstanciais, todas as mudanças nos mexem – em diferentes níveis. É como se nos tirassem pedaços, ao mesmo tempo em que nos molda para a vida, para sermos melhores ou piores. Se nós formos uma criação da vida, é a vida, com a nossa ajuda, quem vai nos dando opções de escolhas para nos moldar. Se acreditarmos que somos diamantes brutos, nós, com as situações que a vida nos proporciona, vamos nos lapidando. Dando a forma e o tom que achamos correto.
Uma mudança é um pedaço que sai. A dor do pedaço arrancado é fato. O que fica em nós, se é bom ou ruim, somente depende das escolhas que fazemos.
Esta semana, eu dei lugar a algo importante. Eu "perdi" algo importante. Eu troquei algo importante. Como se trocasse de amor. Como se possível fosse trocar um filho por outro melhor. Isto seria possível? Obviamente que não. Então, estabelece-se o conceito de "perdas necessárias", título de livro que os profissionais de psicologia conhecem e gostam de citar. É preciso perder coisas. Trocar coisas. Retirar e inserir coisas novas na vida.
E ao colocar coisas novas, é preciso tirar da acomodação outras que já estão. Se se troca de amor, o antigo amor sai de cena, deixa aquele espaço. Mas será que deixa saudade? Está aí a perda. A saudade é o que dá cheiro e gosto à perda. E não se sente saudade apenas quando se está sofrendo. Mesmo na alegria a saudade pode aparecer. Mesmo na vitória absoluta pode-se perder algo.
Eu não tenho filhos. Nunca os tive e não sei se a Providência haverá de dar este carma a algum deles. Acredito que filhos-únicos não podem ter filhos. Aliás, há filhos-únicos que acreditam que filhos-únicos são capazes de ter pouca coisa em termos de divisão de amor e atenção. É possível. Mas a discussão não é esta. (Para Cazuza, um filho-único, os "filhos-únicos são seres infelizes, que tentam provar que se importam com os outros, mas é tudo mentira").
Portanto, sem filhos, meus filhos são minhas obras. Meus textos são meus herdeiros e detentores, por algumas horas, dias ou anos, de toda a minha atenção e cuidado. O que crio é o que expulso de mim e, sendo assim, é o resultado de mim que ronda pela terra. Seja por intermédio destas letras ou de outra forma.
E eu perdi uma criação esta semana. Eu a troquei. Eu troquei um filho.
De um sonho que eu tive, ou que eu sonhei também, eu consegui criar e tornar tátil e visível um quase-delírio. Aliás, para muitos, um delírio completo. Com a ajuda de muitos profissionais e amadores, curiosos e gente do ramo, eu fiz parte da construção de um sonho: fazer uma TV em Anápolis. Uma TV comunitária e local. Com informação. Um instrumento de poder, mas com o uso voltado para o crescimento da cidade. Poder para o povo. E assim foi feito.
Em alguns lances desta história, iniciada em 2005 em total silêncio sepulcral, posso dizer que construí este sonho do chão. Do imaginário para as luzes, câmeras e ação. Descobri, junto com o público telespectador, o que é uma TV local, que mostre a cara de todos. Que nos mostre a todos. Por mais óbvio que pareça, a mística mágica da TV, quando ao nosso lado bem próximo, causa – sim – um espanto.
A TV Comunitária de Anápolis, canal 14 da Net, surgiu aos trancos. Se um caso clínico fosse, seria diagnosticada a presença do efeito perfeito do milagre, como um feto de sete meses que consegue nascer, lutar e sobreviver. E alguns personagens anapolinos, anônimos e muito conhecidos, fizeram parte desta história.
Ernani José de Paula, ex-prefeito de Anápolis e figura polêmica da política de Goiás, foi pai-fundador desta idéia e benfeitor da concepção. Foi ele quem conseguiu este benefício para Anápolis. Benefício indelével, pois, a idéia era justamente conceder um canal aberto, livre e plural, um canal exclusivo para uma cidade. Um veículo que não dispensasse apenas um naco na sua programação para o município, mas que fizesse do próprio município a razão de ser da sua programação. E assim foi feito. Era a TV Anápolis, comunitária.
Após sua precária implantação, com erros e desacertos, desencontros e demais dificuldades próprias de se montar algo definitivamente novo e desconhecido, a TV recebeu um novo impulsionador, um novo incentivador. Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido na cidade e em grande parte do território nacional como Carlos Cachoeira, foi quem deu nova vida à recém-nascida que volta e meia precisava retornar à UTI.
Com o impulso necessário e também com o depósito de confiança no projeto, abrindo portas e oportunizando a realização de diversos eventos e programas que se tornaram referência para a comunicação anapolina, mesmo em tão pouco tempo, a TV Anápolis fez e registrou a história da cidade em seu centenário. Imortalizou personagens que para sempre estarão gravados na memória televisiva anapolina, como as entrevistas feitas pelo programa Arena. No ano do centenário, a TV conseguiu ser mais que uma TV. Conseguiu ser testemunha ocular da história, como antes só o repórter Esso tinha conseguido sê-lo.
Eu, como diretor geral e responsável final por toda a sua estrutura, desde a sua implantação, a realização do primeiro programa, as decisões mais importantes e mais banais, como a peça-mestre de toda a engrenagem, do princípio ao fim, ressalto, aqui, neste espaço, para a eternidade (e o papel tem o sobre-humano poder de eternizar) o nome destes dois personagens anapolinos.
Não me furto à posição que ocupei por não ter este lastro de falsa humildade e tampouco por querer exercitar algo que a mim é muito estranho. Não vou me poupar importância, assim como não o farei a ninguém envolvido neste projeto.
E destaco, desta vez não somente com as credenciais ditas acima, mas com a chancela de profissional de jornalismo e responsável pelo trâmite jornalístico dentro da TV, que nunca, em qualquer circunstância, e sob qualquer égide, nenhum destes dois personagens interferiu, ainda que minimamente, na lisura, transparência e condução desta emissora. Foram elegantes em compreender o preço da liberdade para se ser fiel ao fato tal qual ele acontece.
Cada um, dentro de sua importância, jamais quis moldar, redimensionar ou trabalhar qualquer notícia ou programa a fim de ajustar às suas pretensões ou necessidades. O caráter libertário da programação da TV Anápolis – uma marca que eu ouso dizer ser inédita e espetacular no jornalismo anapolino em toda a sua história – é fruto da liberdade e do pensamento universal e justo de seus fundadores, mantenedores, incentivadores e gestores. Faço registro aqui a dois importantes fundadores. Francisco Macedo Neto e Sebastião Geraldo Alves, o Dinga, que foram – como eu – sombra de todo este projeto, acompanhando-o meticulosamente.
Dos profissionais que ali atuaram (e muitos se fizeram profissionais ali), até os personagens citados, passando por todo o departamento de jornalismo e por mim, todos carregaram para si e aplicaram no dia-a-dia a liberdade de expressão e o compromisso com a fidelidade à informação, à notícia como ela era e é. Sem interferências.
Acredito na minha participação como aglutinador de grandes nomes. Nomes que estiveram acreditando por um período, gente que sempre pôs fé ao projeto, até quando ele parecia mais insano. Gente que passou, ficou, e ainda fica porque guarda a lembrança de algo vivido. Gente que pôs dinheiro, sangue e muito suor. Há quem, como eu, tenha colocado de tudo um muito. E agora, por mera questão momentânea, também não se furta a por lágrimas. Lágrimas de troca. Lágrimas imaginárias de perda.
A vida é assim mesmo.
Como condutor de um processo que nunca será esquecido sinto orgulho de imaginar e saber quem assistiu e se emocionou. Quem riu ou chorou, sentiu raiva ou identificação com a programação. A TV Comunitária de Anápolis – canal 14 da Net – conseguiu cativar e marcar o seu nome na história: seja com ferro quente ou com algum outro doce sentimento. Mas veio e ficou. Já é.
Aos filhos não sobram defeitos, como já se é dito na sabedoria popular. E eu, tratando meus feitos como filhos, só me detenho a elogiar ao falar desta criação-filha e mãe. Obviamente as falhas existiriam, mas não resistiram à paixão de se fazer algo maior e bem feito. O bem sempre vence o mal.
Outro adágio popular prega que não se criam filhos para si, mas sim, para o mundo. E foi o que me ocorreu, agora: eu criei um filho. E o ajudei com a ajuda de outros a fazê-lo viver. E ele viveu. E agora ele não escapa das minhas mãos, mas simples e naturalmente se solta das minhas garras sempre injustas de possessivo criador para seguir outros rumos. Assim é a vida, assim são os filhos e não há momento em que um filho não desobedeça a um pai porque quer viver a própria vida. Vocês têm filhos, sabem disso. Eu também tive, tinha, tenho um.
Por razoes da vida e das demais intercorrências, a TV Anápolis assume novos e nobres compromissos. Mas é a criação para a cidade, que para a cidade se volta e se renova. Mas o olhar do pai sempre vai existir. Um filho nunca se destitui do amor de um pai, por mais que siga os seus caminhos e não os que os pais desejem. O filho se cria para o mundo, a TV Comunitária de Anápolis é para a cidade de Anápolis. E assim ela está.
Quanto a mim, sigo o meu caminho com a certeza de que vou, eu, alçar vôos maiores e mais desafiadores quanto a criar um filho. Dizem não existir desafio maior, compromisso maior. Eu não sei, mas acho que o melhor desafio é sempre o próximo.
Fechando caixas, retirando papéis que remetem a memórias lindas e perfeitas, vou lacrando as passagens da vida para ter a certeza de que melhor estarei, e estaremos todos os que passaram por esta experiência delirante e transcendente que é inventar uma TV para a cidade. Novos momentos surgem, pessoalmente sinto-me mais aliviado e melhor na minha carreira e sinto-me feliz. Mas quem disse que felicidade não pode trazer um pouco de melancolia?
É preciso seguir porque a vida avança e não se pode parar no tempo. Mal do homem é querer sempre mais e mais e eu, não furtado deste sentido, sigo engolindo os nós da garganta e pensando que a vida, ora, a vida é assim mesmo.
Ao final, dando as costas para a casa que abrigou todo este relato e sonho, eu me recordo de "Pedaço de mim", de Chico Buarque. A maior canção de dor de despedida já feita em língua portuguesa:
"Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Porque a saudade é o revés de um parto.
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu".
Cerro os olhos, dou as costas. É hora de partir.
E você, já perdeu alguma coisa antes para dar lugar a outra, melhor?
Nota do autor:
Este texto é dedicado aos personagens citados neste artigo e, ainda, a todos os parceiros, funcionários, amigos, incentivadores, críticos, e apoiadores culturais que emprestaram suas marcas aos diversos programas e que fizeram parte por todo, muito ou pouco tempo enquanto estas memórias se deram. Aos que, ainda que minimamente, se identificaram com esta história e dela se recordam de alguma parte, parabéns e obrigado: este artigo é pra você.