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[ 25 01 2008 ]

18 mil pessoas tomaram vacina sem necessidade

Levantamento da Secretaria de Saúde aponta o tamanho do desperdício em Anápolis, motivado por quem se imunizou mesmo sem precisar

Letícia Jury

A fase de "histeria coletiva", como denomina o diretor de Vigilância e Saúde, José Luiz Ribeiro, já acabou em Anápolis. Não há mais filas quilométricas para vacinar contra a febre amarela. "Entramos na etapa de calmaria", destaca. Agora um outro problema preocupa o município, a quantidade de pessoas que vacinaram sem necessidade. Cerca de 10% dos vacinados não precisavam da imunização.

Além de um prejuízo superior a 16 mil reais para o governo, já que cada vacina custa em média R$ 0,90 e cerca de 18 mil pessoas foram vacinadas inutilmente, essa população recebeu a dosagem de quem realmente necessitaria da imunização. E um terceiro prejuízo, é que muitos desses podem ter complicações em decorrência da superdosagem e onerar o serviço de atendimento público.

Embora a projeção seja que 20 mil pessoas teriam recebido a vacina duas vezes em um intervalo de tempo menor que 10 anos, apenas um caso de superdosagem chegou ao conhecimento da Secretaria de Saúde. No entanto, José Luiz Ribeiro admite que muitas pessoas não procuraram o órgão para informar efeito colaterais.

O diretor informa que nesse universo de pessoas vacinadas incorretamente, ele tem notícias de mães que ‘sumiram’ o cartão dos filhos, para vacinar as crianças mais de uma vez; de mulheres grávidas que omitiram a gestação; de idosos com problemas de saúde e que informaram estar aptos a serem vacinados, dentre outros casos.

Para evitar ainda mais complicações, José Luiz Ribeiro enfatiza que não devem tomar a vacina crianças com menos de seis meses de idade, pessoas com baixa imunidade, gestantes e quem tem alergia a ovo de galinha e derivados. Os principais efeitos colaterais são mal estar, dores no corpo, quadro febril, vômito, enrijecimento dos músculos e sensibilidade hepática.

Pânico

José Luiz Ribeiro denomina a correria aos postos de vacinação como "histeria coletiva". Segundo ele, sua ‘frase’ não tem um efeito pejorativo e pouco menos se caracteriza como uma crítica destrutiva. E defende que a culpa não é da população, e sim das próprias instâncias governamentais que não deveriam ter promovido um ‘alerta’ em grandes proporções.

Em sua opinião o governo deveria ter promovido uma campanha de orientação com os trabalhadores rurais e com as pessoas que trabalham com Eco Turismo, e é claro com aqueles turistas que vão adentrar as regiões de mata. "Paralelamente seria promovida uma campanha na cidade de forma tranqüila, sem pânico", observa.

José Luiz informa também que até o dia 21 de janeiro foram distribuídas 215 mil doses da vacina e destas 15 mil estão nos estoques e cerca de 180 mil pessoas receberam a imunização. Em 1998, em uma grande campanha realizada foram imunizadas 172 mil pessoas. E a meta para 2008 é de que 240 mil sejam vacinadas.

Com relação a morte de macacos, a Secretaria Municipal de Saúde diagnosticou 12 casos, sendo que três amostras forma encaminhadas para análise no Laboratório Central e em seguida serão encaminhadas para Belém.

Local

Os Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul estão na área onde a doença é considerada endêmica. Todos os Estados da região Norte, além de Maranhão e Distrito Federal também estão nesta classificação. O sul do Piauí, o oeste da Bahia e as faixas oeste de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são consideradas áreas de transição.

Especificamente sobre Goiás, José Luiz Ribeiro informa que no início de 2007, a Secretaria Estadual de Saúde se reuniu com as secretarias municipais para alertar sobre os riscos da doença. E defendeu que o governo do Estado está preparado para combater a doença e evitar mortes.


Dengue também preocupa a Saúde

Embora as atenções estejam voltadas para a Febre Amarela, a dengue ainda é uma preocupação da Secretaria Municipal de Saúde. Em 2007 foram 166 casos confirmados, 137% a mais que no ano anterior. A média é de 50 casos para cada 100 mil habitantes. Em 2002 foram registrados 135 casos.

José Luiz Ribeiro diz inclusive, que não está descartada a hipótese de uma epidemia de dengue. Já que a cada dois anos se registra aumento acima de 100%. "Não estamos tranqüilos, por isso, as ações continuam", destaca.

O grande problema na avaliação de José Luiz Ribeiro é a necessidade urgente de mudança de comportamento da população. É preciso sair do conhecimento para a ação, ou seja, da teoria para a prática. "Todos sabem como evitar a dengue, mas nada faz de prático", diz.

Outra situação apontada por ele, é quanto a atualização do teto financeiro por parte do Governo Federal para investimentos no setor. Essa quantia deveria ser para a compra de insumos, pagar os agentes e investir em campanhas de conscientização.

Uma boa notícia, para não causar pânico na população, é de que nessas duas primeiras semanas de janeiro foram registrados três casos de dengue, enquanto e 2007 foram cinco registros. E a expectativa da Secretaria de Saúde é de redução das estatísticas.


O mesmo vírus

A febre amarela é uma doença infecciosa transmitida por mosquitos contaminados por um flavivirus e ocorre na América Central, na América do Sul e na África. No Brasil, a febre amarela pode ser adquirida em áreas urbanas, silvestres e rurais de regiões como Norte e Centro-Oeste, além de parte do Sudeste, Nordeste e Sul. Ou seja, o indivíduo entra em regiões onde exista o mosquito Aedes aegypti ou Aedes albopictus e, conseqüentemente, sofre a possibilidade de ser picado por algum desses mosquitos já afetado pelo vírus, que possivelmente fora contraído pela picada em um ser já portador, como a espécie de bugio ou outros tipos de macacos, e, em seguida, o mosquito pica a pessoa que ainda não teve a doença e, portanto, não adquiriu defesas naturais para combater o vírus. A febre amarela urbana é considerada erradicada no Brasil desde 1942, o que significa que grandes centros urbanos não correm o risco de propagação em massa do vírus.

O vírus da febre amarela pertence à família dos flavivirus, e o seu genoma é de RNA simples de sentido positivo (pode ser usado diretamente como um RNA para a síntese protéica). Produz cerca de 10 proteínas, sendo 7 constituintes do seu capsídeo, e é envolvido por envelope bílipidico. Multiplica-se no citoplasma e os vírions descendentes migram para o retículo endoplasmático da célula-hóspede, a partir do qual são depois exocitados. Tem cerca de 50 nanómetros de diâmetro. Muitos danos são causados pelos complexos de anticorpos produzidos. O grande número de vírus pode produzir massas de anticorpos ligados a inúmeros vírus e uns aos outros que danificam o endotélio dos vasos, levando a hemorragias.Os vírus infectam principalmente os macrófagos.

O período de incubação é de três a sete dias após a picada. Dissemina-se pelo sangue (virémia). Os sintomas iniciais são inespecíficos como febre, cansaço, mal-estar e dores de cabeça e musculares (principalmente no abdômem). Náuseas, vômitos e diarréia também surgem por vezes. Alguns indivíduos são assintomáticos.

Mais tarde e após a descida da febre, em 15% dos infectados, podem surgir sintomas mais graves, como novamente febre alta, diarréia de mau cheiro, convulsões e delírio, hemorragias internas e coagulação intravascular disseminada, com danos e enfartes em vários órgãos, que são potencialmente mortais. As hemorragias manifestam-se como sangramento do nariz e gengivas e manchas azuis ou verdes de sangue coagulado na pele).


Médicos orientam pacientes

Nas últimas semanas em que os anapolinos lotaram ‘desesperadamente’ os postos de vacinação, dois médicos que são referência no município foram aos veículos de comunicação alertar a sociedade dos riscos da superdosagem e dos efeitos colaterais naquelas pessoas que passam por tratamento médico.

Presidente da Sociedade Goiana de Reumatologia, Marcelo Pimenta destacou que os pacientes que tratam de Lupus e Artrite não podem ser vacinados. Ele orientou ainda que aqueles que tomam remédios a base de corticóide e esteróides também não podem receber a vacina.

Como explicou o médico, o risco de contrair a doença mediante a vacinação (ao invés de se proteger dela) é real para esses pacientes. Na ocasião, ele destacou ainda que não há registros de febre amarela urbana, por isso, a população poderia se ‘acalmar’. "Aquelas que fazem tratamento, devem procurar orientações médicas, antes de se vacinar", indicou.

Atenção

O médico infectologista Marcelo Daher declarou à imprensa que não existia "necessidade urgente de se vacinar", apenas aquelas pessoas que moram na zona rural ou trabalham em áreas de risco. Na ocasião ele disse temer a superdosagem.

Marcelo Daher esclareceu ainda que estudos comprovam que a vacina tem validade até mesmo superior a dez anos, o que necessita apenas de um reforço. "Por isso, aquelas pessoas que já vacinaram não precisam se preocupar, elas podem deixar para buscar os postos de vacinação nos próximos meses", informou.

Em todas as entrevistas o médico destacou sua preocupação com a ‘mudança de foco’, ou seja, a febre amarela passou a ser a bola da vez e a dengue esquecida, o que pode resultar em uma epidemia dessa segunda. "O transmissor da febre amarela é o mesmo da dengue. Se não cuidar do meio ambiente, da água empossada e do lixo jogado na rua, os criadouros vão existir e o problema tende a se agravar", alertou.


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