Ao mesmo tempo em que manda desocupar propriedade,
em Bela Vista de Goiás, juiz anuncia que grupo paulista demonstra
interesse em assumir o negócio. decisão deve sair semana que vem
Carla Borges
Cerca de 40 famílias ligadas ao Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ocuparam ontem de manhã a Fazenda Master 6, de aproximadamente 120 alqueires, em Bela Vista de Goiás, distante cerca de 50 quilômetros de Goiânia. A fazenda pertence à massa falida da empresa Avestruz Master, que fechou as portas no dia 4 de novembro de 2005, deixando uma dívida de R$ 1,78 bilhão apenas com os credores que investiram na empresa comprando Cédulas de Produto Rural (CPRs) -, fora os débitos trabalhistas, que somam R$ 4 milhões, e com a Fazenda Pública Nacional, R$ 37 milhões em impostos não-pagos. Os sem-terra deixaram a propriedade ontem mesmo, por volta de 19 horas.
A desocupação foi feita por cerca de 50 policiais militares, que cumpriram ordem do juiz da 11ª Vara Cível de Goiânia, Carlos Magno Rocha da Silva. Não houve resistência. O juiz determinou a reintegração de posse menos de cinco horas depois de saber da ocupação. A preocupação, explicou Carlos Magno ao POPULAR, foi evitar que mais famílias entrassem e que elas tivessem acesso à vizinha Master 1, onde está concentrada a maior parte das benfeitorias. “A cautela maior é porque estamos às vésperas de decidir o caso, para o pagamento dos credores”, justificou. A agonia da Avestruz Master e dos 57 mil investidores que compraram CPRs arrasta-se há dois anos.
O juiz espera receber até terça-feira a resposta de um grupo de investidores de São Paulo interessado em assumir as dívidas trabalhistas e mais R$ 4 milhões das extraconcursais (adquiridas após a decretação da falência), para pagamento dos que investiram no Frigorífico Struthio Gold, em Bela Vista, ainda na fase da liquidação extra-judicial, entre eles o ex-controlador do grupo, Jerson Maciel da Silva, e o advogado Neilton Cruvinel. A possibilidade de o grupo paulista investir na empresa é vista com simpatia por Carlos Magno. “Se isso ocorrer, poderemos quitar até o final deste ano 100% das dívidas trabalhistas e extraconcursais”, pondera o juiz. Caso o negócio não se concretize, a solução será o leilão dos bens que pertenciam à família Maciel, entre eles as fazendas e os carros, avaliados em R$ 2 milhões, cuja venda foi autorizada pela Justiça Federal.
Ocupação
Os sem-terra, cerca de 120 pessoas, segundo a coordenação do MST, e 70, para a Polícia Militar (PM), saíram na madrugada de ontem de uma área cedida por correligionários no Assentamento Olga Benário, no município de Ipameri, na Região Sudeste do Estado. Eles gastaram cerca de três horas para percorrer os 170 quilômetros até a Master 6, onde chegaram cedo. No início da tarde, já havia mais de 20 barracas às margens de um córrego que corta a propriedade. Homens, mulheres e crianças se instalaram no local, nos fundos da propriedade, onde ela faz divisa com outras chácaras e fazendas. Membro da coordenação estadual do MST, Ronair Silva Machado disse que a disposição dos sem-terra era de continuar no local. Eles levaram provisões suficientes para ficar pelo menos uma semana.
“Essa propriedade é emblemática para o movimento, porque seus antigos proprietários são caloteiros que têm de pagar pelos crimes que cometeram contra as pessoas que investiram e os funcionários, que foram abandonados”, afirmou Machado à reportagem. “Reivindicamos que essa área seja destinada à reforma agrária porque ela é improdutiva. Queremos que se faça justiça”, acrescentou. Embora dissesse que o ideal seria que os sem-terra tivessem acesso a uma pequena área para plantar para a própria subsistência enquanto durasse a ocupação, o líder do acampamento admitia que esperava a qualquer momento a decisão judicial para reintegração de posse e adiantava que a desocupação seria pacífica, o que de fato ocorreu.
O superior de dia da Polícia Militar, major Ricardo Garcez de Souza, foi até Bela Vista para acompanhar a desocupação, que ocorreu sem resistência. Cansados pela viagem e pela montagem das barracas do acampamento, os sem-terra voltaram para Ipameri no mesmo caminhão em que viajaram na madrugada de ontem. “Eles foram orientados a não resistir, foi tranqüila a desocupação”, disse o militar. “Eles só estavam mal informados sobre a situação jurídica da fazenda”, ponderou.
Piquetes
As Fazendas Master 1 e Master 6, que há dois anos eram exemplo da prosperidade do negócio de criação de avestruzes, são hoje o retrato da decadência da empresa. Os piquetes onde ficavam as milhares de aves permanecem nos pastos, assim como os bebedouros, mas não há uma única avestruz. As que não foram abatidas ou que não foram vendidas pelos credores morreram de fome. Nos pastos antes ocupados pelas aves agora há gado de corte de arrendatários das fazendas vizinhas. Alguns deles se assustaram com a presença dos sem-terra e chegaram a retirar os animais dos pastos.
Fonte: O Popular