Fonte: O Popular
Marília Assunção
Antes do massacre que matou 111 detentos em 1992, os presos do antigo Presídio do Carandiru, em São Paulo, se referiam a ele como um barril de pólvora prestes a explodir. Segundo constatou a Pastoral Carcerária da Igreja Católica, a mesma expressão “como se fosse um barril de pólvora”, e usada pelos presos da Penitenciária Odenir Guimarães (POG), o antigo Cepaigo, para se referirem ao local. A pastoral enviou ao Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça a reportagem do POPULAR que mostrava, na edição de ontem, a situação de pré-colapso da principal cadeia do Estado.
Dois anos trabalhando no Carandiru e dois anos e meio no POG permitiram algumas comparações entre os presídios à pedagoga e estudante de Direito Glória Madureira de Faria, de 41 anos, coordenadora da Pastoral Carcerária em Goiás. Ela conhece números dos dois presídios – o Carandiru chegou a abrigar 7 mil presos, o Cepaigo está superlotado com 1,4 mil detentos, mas tem somente 40 agentes para 24 horas de atendimento.
Mesmo assim, a coordenadora diz que, em alguns pontos, a situação se assemelha de alguns meses para cá em relação ao que o Carandiru foi até fechar as portas, em 2006, após quatro décadas como o maior presídio da América Latina – e um dos piores. “O sentimento de insegurança, a mesma insatisfação entre agentes carcerários e presos, vi no Carandiru em um nível comparável ao que vejo agora, de fevereiro para cá (no POG)”, afirmou ela ontem.
Segundo Glória, os problemas mostrados na reportagem do POPULAR, especialmente superlotação, falta de pessoal e precariedade de equipamentos e estrutura – falhas que foram filmadas pela Associação dos Servidores do Sistema Prisional (Aspego) – refletem em um número grande de presos feridos e mortos nos últimos meses, como também já mostraram outras reportagens do jornal. “Virou rotina chegar lá e encontrar um detento ferido à faca”, citou.
Medo
A Pastoral Carcerária, frisou ela, tem sido testemunha de um medo crescente entre agentes e presos. “Os agentes recebem coletes à prova de bala usados, descartados pela Polícia Militar. Eles não têm segurança e vários estão sem receber salários desde fevereiro”, reforça. Entre os presos, Glória cita que inverteu a sensação de que o POG oferecia uma condição de recuperação mais digna. “Antes, eles pediam para sair de outras cadeias para ficar no Cepaigo. Agora, imploram para não ir. Dizem que têm medo de morrer lá”, cita.
A direção do presídio, como mostrou a reportagem de ontem, não nega ou ameniza a situação. O superintendente de Segurança da Secretaria Estadual de Justiça (Sejus), major Anésio Barbosa da Cruz, confirma que comunicou a situação aos superiores e ao Ministério da Justiça e que aguarda recursos na ordem de R$ 2 milhões para reformar as instalações elétrica e hidráulica da unidade. O secretário da área, Edemundo Dias de Oliveira Filho, também falou da expectativa de recursos federais em torno de R$ 4 milhões para investimentos em inteligência, informática, segurança prisional e ensino.