Governo. Parcela de R$ 47,1 bilhões - de um total de R$ 395,8
bilhões tidos como executados em todo o programa - supera volume de
empréstimos concedidos para construção ou compra de bens novos, indica
levantamento feito pelo Tribunal de Contas da União
Uma parcela de 12% do valor total dos projetos do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) tidos como "executados" pelo governo
não tem impacto sobre o crescimento da economia. Essa parcela trata de
financiamentos para a compra de imóveis usados e inflou os resultados
do PAC, ao fim de três anos, em pouco mais de R$ 47 bilhões.
A crítica, feita na forma de "alerta", aparece no relatório de
contas do governo aprovado por unanimidade pelo Tribunal de Contas da
União (TCU). O relatório informa que, nesse tipo de operação de
empréstimo, "não há impacto" nas contas que medem o crescimento da
economia.
Os financiamentos à compra de imóveis usados representariam "tão
somente a mudança do proprietário do bem", afirma o texto aprovado pelo
TCU na semana passada. O relatório completo está disponível na internet.
O Estado ouviu o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a quem cabe calcular as taxas oficiais de crescimento. O
coordenador de contas nacionais, Roberto Olinto, confirma a avaliação
do TCU: "Não há impacto nenhum no crescimento."
Segundo Olinto, a construção de imóveis tem impacto no crescimento,
mas não a venda de imóveis já usados. "Poderiam até alegar efeitos
indiretos, quando o vendedor do imóvel usado gasta todo o dinheiro na
compra de outros bens produzidos, mas esses desdobramentos são muito
difíceis de medir", observou.
Ambiente econômico. A secretária de Habitação do Ministério das
Cidades, Inês Magalhães, argumentou que os financiamentos a imóveis
usados entraram na contabilidade porque são importantes para melhorar o
ambiente econômico. "O imóvel usado não agrega, tudo bem. Mas o
importante é a economia como um todo, e os financiamentos fazem a
economia girar", alegou.
As ações na área de habitação foram as que mais cresceram no período
de três anos, entre o início do PAC e o balanço apresentado em dezembro
de 2009, o último considerado na análise do TCU. A parcela de
financiamentos à habitação representa sozinha cerca de 30% do total de
investimentos e supera a área de petróleo e gás, a segunda do ranking
em volume de recursos públicos e privados.
De acordo com a análise do TCU, R$ 47,1 bilhões de um total de R$
395,8 bilhões tidos como executados em todo o PAC referem-se
exclusivamente ao financiamento de imóveis usados. Essa parcela supera
o volume de financiamentos à construção ou compra de imóveis novos.
Contabilidade. O relatório do TCU também chama a atenção para o fato
de o governo não esperar a liberação do dinheiro pelas instituições
financeiras para contabilizar as operações como empréstimos concedidos.
Basta a assinatura dos contratos para o dinheiro entrar na
contabilidade. O mecanismo é o mesmo usado para avaliar a execução de
projetos na área de infraestrutura do PAC.
Até o último balanço do PAC analisado pelo TCU, os financiamentos
para imóveis novos e usados e para reforma haviam beneficiado 788 mil
pessoas. No balanço do primeiro quadrimestre de 2010, esse número subiu
para 893 mil empréstimos concedidos.
O relatório de contas critica ainda o grande volume de despesas do
PAC com dinheiro do Orçamento da União ainda pendentes de pagamento, os
chamados "restos a pagar". O Programa de Aceleração do Crescimento é
responsável pela maior fatia dos investimentos ainda não pagos. Parte
da conta deverá ser transferida para o futuro governo.
(Fonte: O Estado de S. Paulo)