Governo anuncia que vai adiar, em cerca de dois meses, a
realização de concursos e a contratação de selecionados para bancar o
reajuste de 7,7% dos aposentados. Parlamentares reagem a corte nas
emendas
Segundo o vice-líder do governo no Congresso, Gilmar Machado (PT-MG),
basta atrasar em cerca de dois meses a realização de novos concursos e a
contratação de selecionados para que as contas públicas se ajustem,
pois o impacto ficaria para o Orçamento de 2011. “Alguns concursos
públicos que ainda não tiveram edital lançado e seriam feitos em julho
podem ser realizados em agosto ou setembro. E a posse dos selecionados
pode ser adiada em uns dois meses e já haveria impacto orçamentário”,
explicou.
Para ajustar as contas, além dos adiamentos de concursos, o governo
pode deixar de homologar seleções antes de 3 de julho, quando começa o
impedimento eleitoral, jogando a fatura para o próximo governo. Segundo
a legislação, nenhuma posse pode ocorrer nos três meses que antecedem e
que sucedem o pleito eleitoral, ou seja, todo o segundo semestre.
Na expectativa de serem nomeados estão candidatos de concursos grandes,
como analistas e técnicos do Banco Central, cargos administrativos da
Advocacia-Geral da União (AGU), do Incra e do Ministério da Pesca e
Aquicultura; diplomatas do Itamaraty; agentes e escrivãos da Polícia
Federal; analistas e técnicos do Ministério do Planejamento
e inspetores e agentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Somadas, essas seleções vão preencher mais de 2 mil vagas no serviço
público.
O anúncio dos cortes também causou rebuliço entre os parlamentares no
Congresso. Base aliada e oposição resolveram marcar o descontentamento
boicotando ontem a votação de créditos suplementares previstos na
Comissão Mista de Orçamento. O protesto dos governistas foi silencioso.
Apesar do dia movimentado nas duas Casas, a base aliada não compareceu à
votação, prejudicando o quorum. A oposição, por sua vez, deixou clara a
insatisfação. Esperou o presidente Waldermir Moka (PMDB-MS) abrir a
reunião para derrubar a sessão por falta de quorum. “A obrigação de dar
quorum é do governo. Não sei quais são os problemas com a base, mas
querem usar a oposição para dar quorum. Se o governo quer cortar
emendas, que diga explicitamente quais as emendas serão cortadas”,
reagiu o deputado Luiz Carreira (DEM-BA).
Estudo
Os parlamentares ficaram ainda mais irritados quando souberam que,
ainda em maio, logo depois de aprovado o projeto de reajuste no
Congresso, o governo pediu estudo sobre o impacto e os cortes
possíveis. Na tentativa de diminuir o grau de fervura da crise, Gilmar
Machado argumentou que os congressistas não devem ficar prejudicados,
pois apenas as emendas de bancada e as de comissões serão atingidas.
Segundo o parlamentar, as emendas coletivas podem ser reduzidas em R$
800 milhões.
No Senado, a oposição bateu forte no governo. Parlamentares tucanos
usaram a tribuna da Casa para discursar contra o tratamento dispensado
pelo governo ao Legislativo e repetiram que não têm “chefe” nem “rei”. O
líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), declarou que vai
obstruir a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enquanto o
governo não acenar com investimentos para a construção da refinaria de
Manaus. O corte de emendas pode retirar recursos da obra. “Vou impedir a
votação da LDO pelo tempo que eu resistir. Eu não tenho chefe.” O
presidente da Comissão de Orçamento afirmou que tem ligado para
parlamentares da base convocando-os antes das reuniões. “Eu faço minha
parte que é abrir a sessão.”
Ontem, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou projeto
do senador Paulo Paim (PT-RS) que corrige aposentadorias defasadas com
base em salários mínimos fixados à época em que o benefício foi
concedido. Se o plenário aprovar, a proposta vai à sanção presidencial.