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[21 06 2010]
BID aposta no Brasil
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Presidente do BID acredita que os países desenvolvidos enfrentarão
período de crescimento lento, enquanto os emergentes sustentarão o
mundo
Presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) desde
2005, Luis Alberto Moreno não esconde o entusiasmo com o início do que
chama de “a década da América Latina”, que, na sua visão, já começou a
viver um processo de redução de pobreza e da miséria combinado com
crescimento de renda e da atividade econômica. “E o Brasil é o melhor
exemplo”, repete em diversas ocasiões ao tratar dos temas sociais,
políticos e econômicos da região. O economista colombiano de formação
liberal conduziu um dos mais fortes planos de liberalização econômica e
privatizações.
Antes de chegar ao BID, Moreno foi embaixador nos Estados Unidos,
onde teve um papel importante na aprovação pelo Congresso
norte-americano do chamado Plano Colômbia, um programa de US$ 4 bilhões
para combate ao narcotráfico no país. As habilidades do diplomata, cuja
recondução ao cargo já conta com o apoio do governo brasileiro,
transparecem quando confrontado com temas espinhosos. As críticas aos
governos mais esquerdistas, como o venezuelano, de Hugo Chaves, são
deixadas de lado em troca dos elogios à maturidade institucional do
Brasil.
Moreno vê com otimismo as possibilidades do fim da crise econômica
que afeta os países do sul da Europa. No entanto, ele destaca que a
recuperação vai demorar entre quatro e cinco anos, o que fará com que as
nações europeias enfrentem uma década perdida como ocorreu com os
latino-americanos. Nem mesmo nos prognósticos do futebol, o colombiano
arrisca radicalizar. Ele não indica o vencedor, mas acredita que, dos
quatro semifinalistas da Copa do Mundo, há uma séria chance de três
serem do Mercosul: Argentina, Brasil, Chile ou Paraguai. Leia, a seguir,
os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao Correio.
Como a América Latina vai superar os desafios do
desenvolvimento econômico em um contexto político ainda marcado pela
influência político-ideológica de governos estatizantes, como os da
Venezuela, do Equador e da Bolívia?
São muitos os desafios que a América Latina tem, mas eu diria que
vamos terminar os próximos 10 anos com a década latino-americana. Se
observarmos a recuperação da economia mundial, fica claro que ela ocorre
fundamentalmente na Ásia e nos países da América Latina. Não há dúvida
que os países latino-americanos, especialmente os maiores e os da
América do Sul, têm uma oportunidade de crescimento muito boa porque
podem produzir, a preços muito competitivos, os produtos básicos devido
ao fato de que estamos em um cenário de baixas taxas de juros e baixos
preços do petróleo. Por outro lado, alimentos e minérios estão todos
com preços sob controle. Diferentemente do que ocorria no passado,
estamos acabando com a extrema pobreza, o que permitiu que em nossos
países haja um crescente mercado interno. O melhor exemplo disso é o
Brasil, onde se constata o crescimento do consumo das classes C e D.
Esse conjunto de coisas me encoraja a pensar que teremos uma década
muito interessante, especialmente para a América do Sul.
Mas as pressões na área social persistem.
O bom desempenho econômico não quer dizer que todas as brechas
sociais que estão abertas não sejam a grande urgência no cenário.
Parece-me que, nesse caso, é preciso convocar toda a sociedade. Nós, do
BID, trabalhamos com muitas organizações de empresários, com
filantropia privada. Nesta semana, lançamos no México, com o presidente
Felipe Calderón e com o empresário Bill Gates (da Microsoft), um
programa, que contou com o apoio do governo espanhol, voltado para o
atendimento de saúde em toda a América Central. Menciono isso a título
de exemplo, porque no Brasil também está se fazendo muito. A
filantropia visa a oferecer apoio e a atender necessidades urgentes,
buscando nem tanto se concentrar nos problemas, mas nas soluções.
Quando se percebe que a concentração de renda não cai mesmo
com os fortes investimentos sociais do governo, fica a dúvida de como
essas políticas podem atuar para ajudar nessa direção.
Essas são questões que tomam muito tempo. Como são demoradas,
apresentam desajuste por causa da concentração da riqueza. Não se
resolvem da noite para o dia. A grande oportunidade para a América
Latina é pensar que toda essa melhora econômica contribui para a
crescente evolução da classe média, que começa a consumir e aportar
muitíssima riqueza para todos. O mais importante é que isso não tem
volta. Sabemos que se considera um país desenvolvido quando ele
apresenta um PIB (Produto Interno Bruto) per capita em torno de US$ 10
mil. Não há nenhum país na América Latina que esteja nesse ponto, nem
sequer o Chile. Mas estamos nos aproximando desse nível nos próximos
anos e isso já é um caminho muito importante, que nos coloca numa
posição muito diferente da que tínhamos no passado.
Maior exportador mundial, maior consumidor de produtos
básicos e o país que mais aumenta sua presença no Hemisfério Sul, até
que ponto a China representa um risco para a América Latina?
A China representa uma oportunidade e um desafio para todos os
países latino-americanos, tanto que já é o principal parceiro comercial
do Brasil. A China não tem, obviamente, apenas a aspiração de ser um
grande importador de commodities nem um exportador de produtos de baixa
qualidade. Pelo contrário, tem as mesmas ambições de fazer o que fez o
Japão no passado, que foi quem conseguiu mover-se de produtor de bens
de baixa qualidade para os de alta tecnologia. O mesmo ocorreu com
outros países orientais como a Coreia do Sul e Cingapura, que focaram
suas atuações na área de serviços. Não há dúvida que a China pretende
melhorar a sua produção e, com isso, abre um espaço interessante para
que certas empresas de porte médio possam observar, aprender e crescer
com os chineses. Sobretudo, entender os requisitos que permitem
consolidar a presença dos seus produtos no mercado internacional. Há
aqui uma oportunidade muito interessante para as empresas
latino-americanas.
Como o senhor relaciona o desenvolvimento econômico da
América Latina com as eleições recentes ou próximas em países como
Brasil, Colômbia e Chile?
Na medida em que existe prosperidade econômica nesses países, as
pessoas começam a vivenciar essa realidade. Com isso, há muito mais
atenção nos resultados políticos e cobrança para que exista estabilidade
econômica. Eu acredito que o grande desenvolvimento da região, e o
Brasil é o melhor exemplo disso, está ligado a esse fato. Eu recordo um
fato que me impressionou por demonstrar a maturidade política a que
chegou o Brasil nesse quesito. No primeiro semestre de 2008, o
presidente Lula disse que Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do
Banco Central) “tinha que fazer o que tinha que fazer”. E o que era
isso? Frear a economia brasileira porque havia um choque de preços de
produtos básicos, de alimentos e de petróleo. Tudo isso foi feito sem
que tivesse afetado a alta popularidade do governo. Muitos
latino-americanos precisam entender que a estabilidade macroeconômica é
algo que não tivemos no passado, mas que hoje é muito importante. É um
bem público que devemos defender. Conheço muitos governos que estão
fazendo isso, não todos, porque estamos numa região muito heterogênea.
Mas, sem dúvida, o que vamos ver agora são eleições mais disputadas, nas
quais não há uma variação muito grande nas propostas econômicas.
A crise na Zona do Euro ameaça o crescimento mundial e, de
acordo com especialistas, pode gerar uma situação ainda mais crítica
que a do subprime. O senhor vislumbra saída para esse cenário?
Espero que não ameace o crescimento. Outra crise é a última coisa
que queremos. Uma série de fatores alimenta a volatilidade no mercado
europeu, por causa das incertezas sobre como vai resultar, por exemplo, o
resgate da Grécia. Mas a verdade é que a Grécia é para a Europa o que o
estado do Alabama é para os Estados Unidos: muito pequena. Então, o
caso pode ser resolvido. Lamentavelmente, esses problemas vão resultar
no que ocorreu na América Latina no passado, em uma década de baixo
crescimento para os países afetados pela crise. Não menos certo é que
essas crises financeiras exigem que se passe quatro ou cinco anos antes
que as economias consigam retomar o crescimento que obtinham no período
anterior à crise.
Estamos perto de um colapso do euro? Como o Brasil e os
demais países latino-americanos serão afetados nesse cenário?
Não acredito que o euro vai acabar.
A Europa terminará, com o tempo, saindo fortalecida dessa crise. Sem
dúvida, isso vai ajudar que ocorra uma sincronização maior das
políticas fiscais. Vamos assistir a incertezas que vão afetar a América
Latina e ao Brasil, que têm um comércio importante com os europeus,
especialmente a Alemanha. Muitos países sul-americanos têm uma relação
comercial importante com a Europa e sobretudo em investimentos.
A crise financeira levou a uma discussão sobre o papel do
BID, que acabou fortalecido por uma decisão recente de aumento de
capital por parte dos países-membros, num aporte de US$ 70 bilhões.
Como fica o Brasil nesse contexto?
A capitalização, no cenário latino-americano, está associada à
proposta de que o banco articule financiamentos que ajudem na integração
latino-americana. Esse é um tema em que o Brasil atua muitíssimo, tem
um trabalho importante nas suas fronteiras de integração comercial e de
infraestrutura. Temos aqui uma oportunidade muito grande de trabalhar
com o Brasil. É claro que o Brasil continuará sendo, seguramente, o
principal cliente do banco, pois é a maior economia da região.
Qual é o valor dos empréstimos?
Neste ano, vamos ter operações que devem chegar a US$ 2,7 bilhões,
muitas delas nas áreas já tradicionais, especialmente com os governos
estaduais, com o Prodetur (Programa de Desenvolvimento do Turismo).
Temos um trabalho muito relevante com os estados nordestinos, que
concentram um número grande de sedes da Copa do Mundo de 2014. Atuamos
no Pró-Cidade (programa federal de financiamento da infraestrutura
urbana dos municípios), que, neste ano, já contratou US$ 800 milhões em
várias cidades, com recursos de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões. Há e
haverá também um grande espaço para as empresas, porque nos interessa
muito apoiar o setor privado.
Os economistas estão muito acostumados com previsões. O
senhor arriscaria uma um pouco mais complicada, como quem vai ganhar a
Copa do Mundo de futebol?
Como a Colômbia quase nunca vai à Copa, então torço para o Brasil.
Foi com a camisa brasileira que estive pela última vez na competição, na
final da Copa da França. Agora, quanto ao torneio atual, prefiro não
indicar o vencedor. Eu falo como latino-americano e espero que, entre as
quatro equipes que vão para a semifinal, pelo menos três sejam de
países do Mercosul: Argentina, Brasil, Chile ou Paraguai. O time da
Argentina joga muito bem, como demonstrou na vitória de 4 a 1 contra a
Coreia do Sul. A Alemanha vem muito bem também. Mas o Brasil, por mais
que baixe de produção, retira o melhor de si quando está sob pressão.
Há muito mais atenção nos resultados políticos e cobrança para
que exista estabilidade econômica. O Brasil é o melhor exemplo disso”
(Fonte: Correio Brasiliense)
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