Os bilionários problemas
da BP nos Estados Unidos estão afetando o processo de transferência dos
ativos da Devon no Brasil comprados pela companhia britânica em março
por US$ 7 bilhões. Ainda não foi feita nenhuma comunicação formal a
respeito, apesar de notícias na imprensa internacional. O diretor-geral
da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, admitiu ao Valor
que a agência não tem pressa em aprovar a transferência dos ativos -
alguns no pré-sal -, que continuam sendo de responsabilidade da Devon.
Segundo Lima, o objetivo é estudar "com calma" os dados apresentados
pela britânica de olho nos trabalhos de avaliação das causas do
acidente no Golfo do México.
"Estamos analisando o
assunto mas não vamos decidir agora, em um momento de tensão e antes de
ficarem prontos os estudos que vão dizer se os problemas no Golfo do
México não resvalam para problemas maiores. Vamos aguardar um pouco.
Não temos pressa", explicou Lima.
A área técnica da ANP está
acompanhando as investigações do acidente nos EUA, a cargo do Serviço
de Administração de Minérios (MMS). O regulador brasileiro também
explicou que a notícia da criação de um fundo de US$ 20 bilhões para
pagar indenizações nos Estados Unidos - que muitos analistas apostam
ser apenas o piso e não o teto do que a BP deverá pagar pelos prejuízos
- é outro fator que vai influenciar a decisão da agência de não agir
com pressa para a conclusão da análise. "A BP tem muito dinheiro para
vir para cá e queremos saber se ela terá sustentação financeira para
assumir esses compromissos."
A BP é a maior produtora
de petróleo e gás no Golfo do México americano, com 400 mil barris por
dia. Também detém mais de 650 concessões em águas com profundidades
superiores a 380 metros na região. Mas a incapacidade mostrada para
estancar um vazamento de 60 mil barris por dia de petróleo direto no
mar tornaram a empresa alvo de críticas do presidente dos EUA, Barack
Obama. Ele acusa a companhia de ser responsável pelo maior acidente
ambiental da história do país. Ao anunciar que concorda com o aporte de
US$ 20 bilhões em um fundo de indenizações, a BP disse que vai
suspender o pagamento de dividendos a seus acionistas este ano, e com
isso eles devem deixar de receber um valor estimado em US$ 7,4 bilhões.
Lima reconhece que não
existem, até o momento, impedimentos à transferência de ativos. A
maioria dos blocos está em fase exploratória e o maior volume de
investimentos se dá na fase de desenvolvimento da produção. E o único
projeto em produção é Polvo, onde a Devon está produzindo petróleo
pesado na bacia de Campos. A legislação brasileira prevê que a empresa
que assumir ativos de outra precisa apresentar a documentação exigida
na época da assinatura do contrato (observadas as exigências de cada
licitação), independentemente de estar comprando participação
minoritária ou toda a área. A BP informa que entregou toda a
documentação e garantias financeiras exigidas pela ANP.
Ivan Simões Filho,
diretor de Relações Institucionais da BP Brasil, disse que a
documentação é extensa, exige tempo para ser reunida e já foi entregue à
ANP. Na avaliação do executivo, que já trabalhou na agência reguladora
como superintendente de promoção de licitações, a análise faz parte do
processo decisório normal. Quanto às preocupações manifestadas pelo
diretor-geral, Simões Filho disse que elas não têm fundamento.
"A BP tem uma solidez
financeira muito grande. Tem todas as condições de enfrentar os desafios
à frente e é capaz de honrar todos os compromissos assumidos", disse.
A britânica comprou
participação em dez blocos exploratórios, sendo oito no mar e dois em
terra. Das áreas marítimas, uma está na bacia Camamu-Almada e sete na
bacia de Campos, em áreas inclusive no pré-sal, onde foram feitas as
descobertas de Xerelete e Wahoo, além da chamada Itaipu. Wahoo, no qual a
BP passa a ter 25%, fica no bloco BM-C-30. A área é operada pela
Anadarko e fica perto do Parque das Baleias, da Petrobras, onde é
produzido petróleo no campo de Jubarte. O campo de Polvo produz cerca
de 15 mil barris de petróleo por dia e também fica na bacia de Campos.
Os blocos em terra ficam nas bacias Barreirinhas e Parnaíba.
(Fonte: Valor Econômico)