Embora Pesquisa de Orçamentos Familiares mostre a maior redução de
desigualdade desde 1960, problemas persistem
O
retrato mais amplo e detalhado da situação econômica das famílias
brasileiras revela que as pessoas vêm ampliando a renda e tendo acesso a
cada vez mais serviços, como transporte, assistência à saúde e
educação. A comida não pesa tanto no bolso como antigamente e os gastos
com itens que garantem uma vida mais confortável cresceram. O carro
novo na garagem, a internet, o celular, a casa própria, tudo parece ter
ficado menos distante. Ao mesmo tempo, as desigualdades persistem.
Escolaridade, raça e localização geográfica ainda definem padrões de
consumo que há décadas separam ricos de pobres.
Divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 mostra que o
rendimento total médio mensal familiar atingiu R$ 2.763,47, saldo
maior do que os R$ 2. 494,25 apurados no último levantamento, realizado
entre 2002 e 2003. O menor rendimento foi localizado no Nordeste, que
correspondeu à metade do maior, identificado pelo IBGE na Região
Sudeste. As despesas também aumentaram no confronto da POF 2008-2009 com
a de 2002-2003 e com um estudo semelhante feito pelo IBGE em
1974-1975. Os pesquisadores descobriram que a família brasileira gastou
no ano passado, em média, R$ 2.626,31.
Os desembolsos com transporte e alimentação se equipararam: quase um
quinto da renda das famílias sustentou o consumo de produtos ou
serviços relacionados a esses dois setores. As facilidades, porém, não
estão distribuídas de maneira uniforme. De acordo com o IBGE, a despesa
média per capita dos 10% das famílias que possuem os maiores
rendimentos (R$ 2.844,56) era, em 2009, 9,6 vezes superior à dos 40%
com os menores rendimentos (R$ 296,35). Em 2002-2003, a distância era
de 10,1 vezes. Anos de estudo dos membros da família também foram
decisivos para qualificar o gasto médio mensal. O levantamento do IBGE
aponta que, em 2009, chegava a 207% a diferença nesse indicador entre
os grupos familiares que tinham uma pessoa com menos de um ano de
estudo para aqueles que contavam com um indivíduo que acumulou 11 anos
ou mais de estudo. Na POF 2002-2003, o contraste era de 400%.
O chefe do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getulio Vargas
(FGV), Marcelo Neri, diz que a pesquisa do IBGE evidencia um país de
desigualdades em queda, mas ainda inaceitáveis. “O bolo de renda cresceu
e mudou a distribuição entre os gastos. Isso influencia tudo. É a
maior redução de desigualdade desde 1960, mas poderia ter caído mais”,
justifica. Para o especialista em pobreza e renda, o maior desafio é
continuar atacando os gargalos sociais. “A má notícia é que o Brasil
ainda é estupidamente desigual. A boa notícia é que, se combatermos o
problema como viemos combatendo nos últimos anos, o país poderá ser,
daqui a cinco anos, muito diferente do que é hoje. E diferente para
melhor”, completa. Os técnicos do IBGE visitaram cerca de 60 mil
domicílios urbanos e rurais de maio de 2008 a maio de 2009.
Salário x mês
Ao todo, 75,2% das famílias consultadas admitiram dificuldades em
chegar ao fim do mês com a renda que possuem. A certeza de que o salário
e o calendário não caminham em sintonia é mais forte entre os que têm
renda mais baixa, de até R$ 830 mensais. Na ponta da pirâmide, as
famílias com ganhos acima de R$ 10.375 indicaram ter quase nenhuma
dificuldade em conciliar os dias com os gastos, tanto que apenas 2,6%
das famílias pesquisadas fizeram alguma referência a problemas em
ajustar o orçamento.
José Antônio Lutterbach, analista do IBGE, avalia que um dos principais
diagnósticos constatados pela POF está no fato de que as pessoas
elevaram renda e gastos de forma acentuada. “É um indicativo importante
de melhora do poder aquisitivo”, resume. Apesar disso, há diferenças
entre as despesas de homens e mulheres — elas perdem —, e de famílias
com pessoa de referência de cor branca, que tiveram gastos 89% acima
dos colhidos entre as famílias com pessoa de referência de cor preta.
O Estado também está mais presente na vida das pessoas. A pesquisa do
IBGE constatou que 61,1% da renda mensal da família brasileira vem do
trabalho. A segunda maior participação no total é atribuída às
transferências (18,5%), recursos destinados principalmente por repasses
do governo, como aposentadorias, pensões e programas sociais federais.
DF tem despesa 50,9% superior
O Distrito Federal registrou a maior despesa média total por
família: R$ 3.963,99. Isso corresponde, de acordo com a POF 2008-2009, a
50,9% além do que alcançou a média nacional (R$ 2.626,31). Entre todas
as unidades da Federação, o DF também se destacou pelo elevado
rendimento total, incluindo variação de patrimônio, que alcançou, no ano
passado, R$ 4.602,48 por família, na média mensal. Assim como ocorre
em nível nacional, a maior parcela da renda está atrelada ao trabalho,
seguida por transferências de naturezas diversas. O IBGE levou em
consideração 778.940 famílias no DF, cujo tamanho médio foi classificado
em 3,26 pessoas. Despesas com alimentação, habitação e transportes
estão entre as maiores identificadas pelo IBGE no local. (LP). (Fonte: Correio Brasiliense)
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