Home Opinião A oposição que precisamos e merecemos

FLÁVIO MOBAROLI

Faz tempo que o Brasil não apresenta uma oposição para além do jogo político. Nestes 12 anos de administração petista, somados os governos Lula e Dilma, os partidos alojados do outro lado do balcão não souberam explorar as deficiências das duas gestões e tampouco exerceram o seu papel precípuo de fiscalizar.

Em outras palavras, a inércia dos agentes políticos da oposição afetou as bases da democracia, deixando de informar o cidadão sobre questões que lhe interessam, mas em relação às quais seu acesso é limitado. Indo um pouco além, afrouxou as pressões sociais, que aconteceram em número limitado, sem foco e com pouco ou nenhum plano de resultados.

Não se pode perder de vista que o exercício responsável da oposição colabora diretamente na consolidação dos princípios da cidadania. Ao estabelecer a possibilidade do contraditório, fomenta discussões que tendem a contribuir com o desenvolvimento da cidade, do estado e do país. É fundamental, portanto, que o maior número de pessoas participe do dia a dia da política, representando os diversos grupos e o máximo de demandas sociais.

A introdução, ainda que possivelmente enfadonha, é uma espécie de contraponto ao momento inédito que o Brasil vivencia e que deve ser aproveitado como ponto de partida para o fortalecimento das oposições enquanto legítimas representantes da população. Não há dúvida de que parte do processo democrático foi cumprida com a realização das eleições e a escolha de Dilma Rousseff para mais quatro anos à frente da Presidência da República. Também é fato que o pleito se encerrou e que as tentativas de produzir um terceiro turno são nocivas à necessária estabilização do país. Todavia, ele não pode, mais uma vez, acabar em acomodação.

A derrota de Aécio Neves (PSDB) por margem tão pequena na corrida à Presidência da República escancara a insatisfação, contida, de milhões de brasileiros e lhe garante a batuta e a condição de maior representante das oposições à administração Dilma Rousseff. É bom que se diga que uma oposição não é e jamais pode ser um governo paralelo. A cada um conforme o seu papel. Mas respaldado pelos milhões de votos recebidos em outubro último, o senador tem o dever, ainda muito mais que o direito, de fazer ecoar as vozes dos insatisfeitos.

Romper, portanto, com o passado recente de omissão é o primeiro grande desafio de Aécio Neves e dos grupos políticos que compõem a oposição. A julgar pelo pronunciamento na tribuna do Senado, feito na quarta-feira, 5 de novembro, ele acenou com essa propósito. “Com o ânimo redobrado, conectados com o sentimento de metade do país, que temos hoje a responsabilidade de representar,” disse, para, em seguida, ir além: “Faremos uma oposição incansável, inquebrantável, intransigente na defesa dos interesses dos brasileiros. Vamos fiscalizar, vamos acompanhar, vamos cobrar, vamos denunciar, vamos combater sem tréguas a corrupção que se instalou no governo brasileiro.”

O que Aécio parece indicar com essa manifestação, é que não vai amaciar ou se deixar vencer pelo cansaço, liderando um grupo que deve atuar de forma integrada e consistente para que o Brasil tenha de volta aquilo que é salutar a qualquer nação: enfrentamento, discordância, divisão de forças. Não se trata de uma guerra e todos precisam entender que o dialogo também é uma ferramenta indispensável mesmo entre adversários. Entretanto, condicionar eventuais entendimentos e vinculá-lo a determinados aspectos – como o aprofundamento das investigações sobre as denúncias de corrupção no atual governo, como citou o senador – é imprescindível.

O momento histórico oferece a oportunidade de PSDB e partidos afins executarem uma oposição sistemática e intensa, ainda que responsável e honesta, ao governo de Dilma Rousseff. Fazer o que apenas o PT soube realizar quando era ele a principal sigla fora do poder. Não podemos pensar na engenharia dentro do Congresso Nacional para barrar votações e segurar o governo federal nas ações que deve realizar. A esse papel já se prestam os próprios partidos da base de sustentação, capitaneados pelo PMDB, com o objetivo de assegurar cargos.

A oposição necessita de efetividade e de movimentos calculados. Deve ser feita com atenção, fiscalizando e exigindo do governo que respeite as demandas sociais, que preste conta dos seus atos. Deve ser feita de modo a informar o cidadão sobre o que acontece nas estruturas de poder e de conscientizá-los. Deve ajudar a banir o autoritarismo e a moralizar o país.

Mas é, acima de tudo, indispensável à oposição ter autocrítica, reconhecer que também erra – tanto que, mesmo por uma margem mínima, foi derrotada nas eleições. Eis o que ela precisa: reinventar-se. Sendo a mesma de antes, tudo permanecerá como sempre.

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