Home Opinião Eleições: saber ganhar e saber perder

ORISVALDO PIRES

A eleição municipal de 1988 foi a primeira que cobri como profissional do jornalismo. Aquela campanha eleitoral ficou marcada como uma das mais disputadas e polêmicas do novo período democrático do Brasil. O pleito aconteceu exatamente no ano de promulgação da Constituição Federal. Portanto, ainda sob o clima cívico do advento da Carta Magna brasileira, instrumento de organização social, de garantia dos direitos e deveres dos cidadãos, e base para as transformações há muito exigidas pelo povo. A lei maior do país trazia consigo a esperança da promoção das reformas necessárias para solidificar de vez a democracia e assegurar o crescimento sustentável do Brasil.

Naquele tempo era permitido fazer boca-de-urna, doar agradinhos para o eleitor, colar cartaz em postes, colocar faixas nas esquinas, pintar nome e número de candidatos no asfalto, fazer comício com show de duplas sertanejas, distribuir pão-de-queijo nas reuniões de campanha, etc., etc., etc. Naquela época era utilizada a cédula eleitoral. O eleitor era obrigado a escrever o nome do seu candidato ou o número dele. Uma letra mal escrita, um número mal desenhado, eram motivos suficientes para discussões que duravam horas. Inúmeros votos eram impugnados.

No entanto, mesmo com polêmicas, impugnações e outras coisas, no final tudo acabava bem. Pedido de recontagem era algo raro e o resultado das eleições sempre era respeitado. Certa vez um vereador foi eleito com diferença de apenas seis votos para o concorrente.Mas vamos voltar à eleição de 1988. Este pleito foi aquele que, segundo revela a história, um candidato dormiu eleito e o outro acordou prefeito. No encerramento da apuração ao final do dia um candidato estava à frente na contagem de votos. Na sequência da apuração, no início do dia seguinte, era o outro postulante que estava na dianteira, até ser eleito.

Quem viveu aquele momento sabe que a campanha fora marcada por intenso debate, críticas de ambos os lados, troca de farpas. O clima foi apimentado. Nada de ‘banho-Maria’. Mas, no final, o resultado foi respeitado e, anos mais tarde, o caso é lembrado como lenda. A eleição municipal seguinte, em 1992, seguiu a mesma receita. O nível da campanha entre Dilma e Aécio que testemunhamos especialmente no segundo turno de 2014, é fichinha perto do que ocorreu naquele pleito, há 22 anos. Um debate histórico na TV mudou os rumos da eleição, a uma semana da votação. O candidato favorito nas pesquisas – até de boca-de-urna – acabou derrotado quando a contagem terminou. Mas, mesmo assim, o resultado foi respeitado.

Há uma corrente culturalista em antropologia que tem como premissa básica que uma dada cultura impõe um determinado modo de pensamento aos homens nela inseridos. A cultura condiciona o comportamento psicológico do indivíduo, sua maneira de pensar, a forma como percebe seu entorno e como extrai, acumula e organiza a informação daí proveniente. As tendências depositadas no subconsciente das pessoas, seja a partir da transmissão do conhecimento histórico-cultural ou do condicionamento psicológico massificado pela mídia indutiva, tende a conduzir pessoas ou grupos delas de que o ideal é sempre levar vantagem em tudo, sempre vencer. O mundo é dos fortes. Os fracos perecem na engrenagem da gananciosa cadeia alimentar.

Em algumas situações da vida – na verdade em muitas – somos compelidos a nos condicionar às vitórias. Quem perde é execrado. Ser segundo colocado é o mesmo que ser o último. Ninguém se lembra do vice. Ganhar é melhor que competir. Assim, somos eficientemente preparados para vencer e quase nunca orientados a como entender uma derrota. No entanto, tão importante quanto saber como saborear uma vitória, é necessário saber assimilar um insucesso. Numa perda supostamente insustentável, é possível angariar forças para num instante seguinte experimentar a felicidade. Não se trata aqui de cultuar o aprendizado à derrota, mas de abrir a mente e o coração para reconhecer somos bons o suficiente para superar de forma íntegra um obstáculo.

Vencer de forma serena, justa e respeitosa, é um talento. Entender um fracasso com altruísmo e utiliza-lo como aprendizado, é uma arte. No mundo esportivo ouvimos que tão importante quanto vencer é competir. Na política os mais calejados reconhecem que disputar eleições faz parte de um processo de construção da vida pública. Ganhar a corrida é importante, perder não é o fim.

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