Home Política Projeto Mulheres no Legislativo entrevista Onaide Santillo

CONSTANTE E CONSISTENTE COMO O FLUXO DAS ÁGUAS DE UM RIO, A SEXTA ENTREVISTADA DO PROJETO MULHERES NO LEGISLATIVO, ONAIDE SANTILLO, REVELA À AGÊNCIA ASSEMBLEIA COMO ABRAÇOU A CAUSA AMBIENTAL EM GOIÁS EM TRÊS MANDATOS NO PARLAMENTO GOIANO.

Fonte: Assembleia Legislativa de Goiás

“A mulher tem mostrado capacidade, força e liderança como protagonista na construção desta nova sociedade que rejeita toda forma de discriminação e preconceito”. É com esses olhos que a ex-deputada Onaide Santillo, sexta entrevistada do projeto Mulheres no Legislativo, enxerga a atual situação feminina na política brasileira. Apesar de reconhecer as inúmeras dificuldades por elas ainda enfrentadas para o rompimento do que considera ser o resultado da “cultura tradicional patriarcal”, Onaide mantém viva a esperança na luta feminina e em suas conquistas.

Anapolina bastante ativa política e socialmente, Onaide legou, em suas três passagens pelo Parlamento Goiano, notáveis contribuições, sobretudo no que tange à defesa das causas ambientais. Foi, assim, deputada estadual pelo PMDB (atual MDB), durante a 13ª (1995 a 1999), a 14ª (1999 a 2003) e 15ª (2003 a 2007) Legislaturas da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego).

Tendo assumido a presidência da Comissão do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Casa, em ambas as ocasiões, ela cumpriu importante papel na criação das microbacias hidrográficas no estado, uma estratégia de gestão fundamental para a preservação do equilíbrio ecológico.

Também, neste sentido, lutou pela preservação e estímulo ao turismo nos parques da Chapada dos Veadeiros (nacional) e de Terra Ronca (estadual) e da Serra das Areias, ambos estaduais. Ademais, realizou muitas outras atividades relevantes para a preservação de nascentes de diversos rios em Goiás.

Já para a sua cidade natal, defendeu, na época, projetos que visavam à criação de incentivos para empresas estabelecidas no Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia). Antes, no entanto, já havia assumido, ali, o cargo de secretária de Serviços Sociais da Prefeitura Municipal. Além disso, foi ainda primeira-dama do município de 1985 a 1988 e de 1997 a 2000, devido ser casada com Adhemar Santillo, prefeito da localidade nas citadas ocasiões. Este também foi deputado estadual e chegou a representar o Estado de Goiás enquanto deputado na Câmara Federal.

O extenso currículo da vida política de Onaide reflete a trajetória de uma mulher que buscou pautar-se, de acordo com ela, pela luta social. “Passei a vida trabalhando, me importando com as pessoas mais vulneráveis. Essa escolha me foi sempre natural e motivada pela fé cristã de amor ao próximo e serviço aos mais humildes”, sustentou.

A ex-deputada é formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Bernardo Sayão (hoje UniEvangélica, de Anápolis), onde afirma ter dado aulas “em uma sala de crianças acolhidas por Sócrates Diniz” – senador e empresário goiano morto em acidente aéreo na década de 1960. É nítido que sua formação pessoal refletiu nas escolhas que fez durante sua trajetória política, visto ter se mostrado, ao longo dela, sempre empenhada no propósito de ajudar o próximo, como já mencionado.

O início da citada trajetória começa com a sua inserção no Grêmio Estudantil Castro Alves do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, em Anápolis. Onaide relatou que, naquela época, ela, juntamente com alguns estudantes ligados à referida associação, “resolveram dar aulas de alfabetização de adultos num bairro distante, onde não havia nem mesmo luz elétrica”. Para dar cabo ao feito, levavam lampiões e os usavam em uma sala improvisada com bancos e mesas.

Foi todo esse envolvimento com as causas sociais que viria a respaldar, futuramente, o seu engajamento também na luta pela garantia dos direitos femininos. Isso a motivou a criar, por exemplo, o Centro Integrado da Mulher (CIM) em Anápolis, durante o período em que foi primeira-dama do município, nos mandatos de Adhemar Santillo. “O que me aproximou das causas femininas foi o contato pessoal com as reivindicações que recebia de mulheres. Na época, não havia divulgação de métodos de planejamento familiar e, por isso, o procedimento de laqueadura de trompas era o mais solicitado. Para você ter noção, uma empresa de Anápolis somente empregava mulheres que tinham feito laqueadura de trompas, comprovada pelo médico da empresa. Além disso, mulheres me procuravam para falar que tinham sido assediadas pelo patrão e outras situações que me levaram a tomar esta causa como pessoal”, contou.

Após tal relato, Onaide faz votos para que a empatia entre as mulheres se torne um hábito comum. Ela defende que a sororidade entre as representantes do gênero seja, portanto, estimulada e que, por meio disso, valores positivos e de empoderamento sejam compartilhados. “Temos que ativar nas mulheres a possibilidade de elas acreditarem no valor que elas têm”, ressaltou.

Uma outra ação muito significativa pela qual Onaide lutou, quando esteve à frente da Comissão de Meio Ambiente, foi pela alteração do Código Tributário do Estado. A modificação referia-se, então, à retirada de dupla incidência, à época, de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre os produtos recicláveis, que eram tanto taxados no momento da produção quanto no do seu recolhimento. “Foi uma vitória. Isso melhorou muito o uso do material reciclável”, disse.

Essas histórias e muitas outras, Onaide Santillo compartilhou com a equipe de reportagem da Agência Assembleia de Notícias e da TV Alego, em mais uma uma produção do projeto Mulheres no Legislativo –  série criada para homenagear as célebres trajetórias de todas as mulheres que cumpriram mandatos nesta Casa de Leis. Além da divulgação neste portal, as entrevistas estão sendo também veiculadas pela TV Alego, no canal aberto (61,2), na Net (8) e no Youtube.

Confira a entrevista completa com Onaide Santillo:

A senhora foi primeira-dama de Anápolis (1985-1988) na mesma época em que o seu cunhado, Henrique Santillo, era governador de Goiás (1987-1991). Como era essa relação? E a coordenação da assistência social em parceria com a cunhada, Sônia Santillo, como foi?

Sempre recusei a denominação de primeira-dama, preferia me identificar como secretária de Serviços Sociais durante os mandatos de prefeito do meu esposo, Adhemar Santillo, entre os anos de 1986-1989 e 1997-2000. Então, a minha intenção, ao abdicar do uso desse título, era diminuir uma possível distância que isso criava em relação à população. Em 1988 houve a coincidência dos mandatos de prefeito do Adhemar e do governador Henrique Santillo serem juntos. Nessa época tive a oportunidade de construir duas creches para filhos de mulheres trabalhadoras em parceria com Sônia Santillo, que era a primeira-dama do Estado de Goiás.

Em que momento a senhora percebeu que poderia alçar voos sozinha?

Isso ocorreu naturalmente. Adhemar sempre me apoiou quando eu fiz um trabalho muito importante em Anápolis. Na época, não existia o Cais que conhecemos hoje, por isso, quando criei o Centro Integrado da Mulher (CIM), foi uma inovação. Isso fez com que muitas mulheres nos incentivassem e dissessem que eu precisava representá-las. Então, em 1994 foi a minha primeira candidatura para deputada estadual. Todas as minhas eleições tiveram bases muito fortes em Anápolis. As duas primeiras eu posso dizer que fui eleita praticamente lá.

A senhora trouxe essas questões relativas à saúde da mulher, temas femininos. Acredita que são necessárias mulheres para pensar políticas públicas para mulheres?

Sim, acho que os homens deveriam também pensar nisso, pois eles são filhos de mulheres, esposos de mulheres e pais de mulheres. Mas, quando você sente a necessidade de fazer uma consulta, de fazer uma mamografia, daí você pensa ‘eu posso fazer, mas e quem está no fim da fila? ’. Então, acho que a mulher sente mais isso. Isso é natural até de outras áreas. Uma pessoa que passou por um câncer, se sente mais à vontade para ser uma voluntária, para participar de uma campanha. Dessa forma, é natural que a mulher queira estar à frente dessas questões. Os homens também deveriam estar lutando, mas o fato de essa não ser a realidade deles provoca uma certa indiferença. Ser mulher nos faz sentir na pele essa vivência e saber que não podemos fugir dessa luta na busca por ajudar umas às outras. Devemos ter solidariedade e nos preocupar com outras mulheres. Nessa época, fiz também o primeiro Programa Idosos de Goiás, que resultou no pioneiro Centro de Convivência de Idosos de Goiás. Também temos que lembrar da pessoa idosa, pois todos nós também envelheceremos, não é? O idoso precisa ser tratado com respeito.

Quanto à rotina de mulheres que conciliam a vida pública com a vida familiar. A senhora enfrentou grandes desafios nesse sentido?

Qualquer atividade que tenhamos fora do ambiente doméstico cria uma carreira que precisamos ter força e serenidade para cuidar. Mas faço uma referência às mulheres que eu convidava para participar das campanhas em várias cidades às quais eu ia, principalmente, quando o Adhemar era candidato a deputado federal. Eu dizia para as líderes de igreja que elas poderiam ser candidatas a vereadoras. Eu incentivava as mulheres. A realidade é que o marido chega em casa e fala que o pessoal do trabalho, da igreja, disse que ele tem possibilidade de ser candidato a vereador e a mulher o apoia. No entanto, se a mulher chegar em casa e disser a mesma coisa, o marido a questionará sobre quem levará as crianças para a escola, se ela tem dinheiro para ser candidata, etc. Esta é a realidade das mulheres. Nós temos barreiras em casa por vários motivos. Eu não tive, mas a maioria tem sim. Tem outra situação que é bem mais séria, que é quando a mulher chega a assumir um cargo de importância e bem remunerado, por exemplo, ela deixaria isso para ser candidata? Pois ela já lutou e conquistou aquela posição com tanto suor. Ela não vai parar tudo, entende? Acho que a mulher ainda vai crescer muito mais em outras áreas, como nos concursos, por exemplo. Na política acho que ainda vamos ter algumas dificuldades, embora existam mulheres líderes com grande potencial para ocupar esse lugar, a meu ver.

Mas por que a senhora acredita que continuamos tendo essa dificuldade?

Creio que seja porque os homens não entendem a possibilidade de a mulher crescer. Além disso, outra coisa que já está mudando é o fato das mulheres compreenderem a importância de se votar em mulheres, pois há algum tempo mulher não votava em mulher. Isso já está diminuindo um pouco, pois há uma rede de ajuda, uma sororidade. O apoio da família também é imprescindível. Infelizmente a política não tem sido vista como um caminho melhor para servir à população.

A competência legislativa dos deputados é limitada e dificulta a criação de políticas públicas, especialmente por causa de restrições orçamentárias. Nesse sentido, você enfrentou muitas dificuldades para ter seus projetos aprovados?

Mesmo que haja restrição orçamentária para criação de políticas públicas, o trabalho parlamentar pode ter uma abrangência maior, criando expectativas, levantando questões, elencando necessidades sobre o assunto. Estas questões levantadas com propostas de soluções vão ter eco nas decisões governamentais. Como exemplo podemos citar a ideia de criação de microbacias para preservação dos cursos de água. A proposta foi apresentada e debatida, e no momento parecia ter sido esquecida. No entanto, mesmo depois de algum tempo, foi criado o Programa Produtor de Água, que tem a origem na preservação de microbacias.

Ainda em relação a essa questão hídrica, o Brasil e Goiás têm sofrido graves crises de abastecimento ao longo desses últimos anos, devido ao ressecamento de lençóis freáticos e alterações no regime de chuvas, dentre outros. Estudos mostram que o nosso modelo de desenvolvimento econômico tem contribuído para agravar esse quadro. Como a senhora percebe a atuação do Governo Estadual no sentido de preservação ambiental e regulamentação agropecuária?

Temos legislação suficiente para garantir o equilíbrio ecológico em Goiás, a produção agrícola e a criação de gado em total harmonia com a preservação ambiental. A legislação do Estado de Goiás é, até certo ponto, rigorosa e completa para termos um Estado economicamente desenvolvido através da produção rural e garantir sustentabilidade para os municípios.

É necessária uma atuação firme do Governo em duas direções: fiscalização efetiva nas áreas de plantio e de pasto com geoprocessamento para evitar o avanço nas áreas de preservação ambiental. Além de corredores, reflorestamento, assim como garantia de áreas remanescentes. Outra direção é no fortalecimento da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), com a intenção de acompanhar, principalmente, os médios e pequenos agricultores, no sentido de manutenção de áreas de preservação e engajamento no Programa Produtor de Água.

Para evitar a contaminação de cursos de água pelos agrotóxicos é fundamental que haja uma fiscalização direta ao produtor, bem como um acompanhamento da quantidade necessária de implementos agrícolas para evitar o desperdício e a contaminação dos alimentos e cursos de água. Importante também é fiscalizar as fronteiras brasileiras, onde os agrotóxicos são contrabandeados com muita frequência.

A senhora chegou a liderar a Comissão de Meio Ambiente da Casa em seu segundo mandato na Alego e propôs a criação de microbacias hidrográficas para preservação do equilíbrio ecológico. Em momento anterior (1999), também chegou a propor matéria para que a construção de barragens para a formação de usinas hidrelétricas obedecessem às normas técnicas de respeito à Piracema que, no entanto, não chegou a ser aprovada. Como foram conduzidas essas discussões?

Chegou à comissão uma denúncia de que as barragens de hidroelétricas não permitiam que os peixes subissem o rio para a desova no tempo da Piracema (referência ao avanço dos peixes no sentido contrário às correntezas para procriação), o que estava diminuindo os cardumes. Foi uma discussão formada por biólogos, engenheiros e ambientalistas com sugestões que foram encaminhadas às respectivas áreas do Governo.

A senhora participou do debate de dois planos plurianuais, em 1999 e 2003. O que conseguiu inserir sobre meio ambiente nos planos? O que efetivamente foi realizado?

No início do meu mandato parlamentar os temas meio ambiente, sustentabilidade, Agenda 21, preservação ambiental eram novidade em Goiás. O primeiro desafio foi formar a Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos com deputados que se interessassem pelo tema, e como boa surpresa conseguimos um grupo que deu importância e contribuiu com o trabalho da comissão. Fui presidente da Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos durante todo o tempo do meu mandato, contando sempre com colegas deputados interessados e ativos em todas as ações e discussões.

A preservação do Meio Ambiente foi uma bandeira importante do trabalho realizado aqui na Casa?

Sim, todos os presidentes que passaram deram muito apoio para a Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Nós tivemos a oportunidade de mudar o Código Tributário de Goiás. Isso porque, naquela época, recicláveis pagavam ICMS duplamente, na produção e no recolhimento do material. Nós conseguimos retirar esse imposto, o que melhorou muito a busca pelo reciclável. Isso foi importante para o meio ambiente. Tivemos a oportunidade também de visitar alguns parques e incentivar, a pedido dos prefeitos, o turismo desses lugares. O Parque da Chapada dos Veadeiros foi um local onde estivemos e constatamos a necessidade da criação de alternativas que fomentassem o turismo, como a estrada asfaltada de Alto Paraíso a São Jorge, por exemplo. Da mesma forma, visitamos o Parque de Terra Ronca em São Domingos, que é um local espetacular. Também estivemos no Parque da Serra das Areias, que fica em Aparecida de Goiânia, que é um lugar que precisa ser muito bem cuidado, pois ele garante o lençol freático daquela região. Portanto, a comissão fez um trabalho forte em relação a esses parques e outros. Também participamos de um programa de recuperação de nascentes em Anápolis, juntamente com o Ministério Público (MP), a Delegacia de Meio Ambiente e a Emater, em que recuperamos a nascente do rio Piancó. Isso aconteceu na época em que foi lançada a Agenda 21 – para que no ano 21 estivesse totalmente mudada a ideia sobre o meio ambiente no Brasil. Além disso, criamos o Prêmio Altamiro de Moura Pacheco (condecoração que até os dias atuais está em vigor na Alego. Os prêmios são entregues em reconhecimento às iniciativas de excelência quanto a preservação, defesa e conservação do meio ambiente), que faz com que as pessoas que trabalham pelo Meio Ambiente possam ser lembradas e valorizadas por meio de prêmios. Também avaliamos os 10 anos da Lei Florestal que foi criada em 1995 (o referido ordenamento jurídico sofreu novas alterações mediante a promulgação da Lei 12.651, de 25 de Maio de 2012). Em 2005 fizemos várias sessões buscando informações de pessoas da área ambiental para saber como melhorar a lei em Goiás. Foi um trabalho efetivo.

A senhora já tinha interesse pela área do Meio Ambiente antes de começar como deputada?

Sim, pois sempre gostei de planta, jardim, etc. Nunca pensei que pudesse trabalhar efetivamente nessa área. Quando o deputado Luiz Bittencourt, que era o presidente da Assembleia, me chamou para ser presidente da comissão, eu achei que não ia dar conta, pois os ambientalistas trabalham demais. No entanto, penso que devemos fazer o que podemos. Foi muito bom. Tivemos a oportunidade de salvar algumas áreas florestais importantes. Realmente foi muito bom trabalhar com os ambientalistas, que são pessoas que pensam no bem coletivo, pensam no futuro. Foi extraordinário.

Como a senhora vê nossa realidade ambiental hoje? Temos episódios trágicos recentes como em Minas Gerais, no caso do desastre ocorrido no município de Brumadinho. Como podemos conciliar, no caso de Goiás, o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental?

É possível. O caso do Rio Araguaia é um exemplo por ser um grande atrativo turístico do Estado, além de ter outros aspectos importantes. Já enfrentou momentos de muito perigo. A produção de grãos avançou tanto nas margens do rio que foram perdidas matas auxiliares, nascentes, e surgiram voçorocas, que são enormes erosões que transformam as nascentes em terra. Elas já estão sendo contidas. Estamos vendo que os produtores de grãos estão sendo obrigados a cuidar, porque senão são serão multados, devendo manter e recompor a mata ciliar. Apenas por meio do cuidado com o meio ambiente nós teremos desenvolvimento e turismo. Nesse processo, fiscalização e conscientização são fundamentais.

Recentemente tivemos uma discussão sobre a liberação de novos produtos químicos – agrotóxicos ativos – para serem utilizados nas lavouras, o que vão na contramão da recente tendência de produção orgânica e incentivo a pequenos produtores. Qual é a opinião da senhora a respeito dessa questão?

O mau uso desses produtos é proibido por lei. Em alguns casos eles são contrabandeados e usados de forma exagerada pelos produtores. Diante disso, é preciso que haja uma fiscalização rigorosa nas nossas lavouras, uma vez que é problemático o uso irresponsável desses produtos em lavouras de grãos.

Noutro aspecto, você defendeu a ampliação e o desenvolvimento do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia). Como foi esse debate?

Criamos no Daia, por meio da Fundação Estadual do Meio Ambiente de Goiás (Femago) e da Comissão de Meio Ambiente da Alego, um observatório de monitoramento da qualidade do ar, levando em conta a necessidade de manter o ar adequado à saúde, segundo os valores da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em 2001, foi aprovada a Lei nº 13.823/2001, que trata da divulgação dos estabelecimentos multados por poluição e degradação ambiental. Qual sua contribuição nesta lei? Como foi a discussão?

A divulgação de lista negra dos poluidores, ou seja, divulgação das empresas que são punidas por produzirem poluição, é uma forma de execrar a conduta irregular. Contudo, o aprendizado do conceito de energia limpa e o conhecimento de técnicas que evitam vários tipos de poluição através de consultoria é o caminho para conscientização ambiental. A Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos provocou o Governo para a necessidade de manutenção de parques estaduais; apoio aos municípios para estruturar vias de acesso; garantia de rodovias em bom estado, para o incentivo do turismo interno e externo em Goiás. Esse deve ser, também, o papel das comissões da Assembleia, além das obrigações constitucionais, claro.

Agora falando das questões de gênero, propriamente. Você chegou a defender, em 2002, a criação de uma Comissão Permanente de Defesa da Mulher na Alego, que também não logrou aprovação do Parlamento na época, mas que vem sendo retomada, de alguma forma, pelas mulheres deputadas da atual legislatura. O que você julga que possa ter emperrado a aprovação dessa matéria? Você acredita que hoje o momento seja mais propício à sua aprovação?

Vejo uma importância enorme na memória destes fatos, como a lograda criação da Comissão Permanente de Defesa da Mulher na Assembleia em 2002, uma iniciativa que esbarrou no descaso com que, até então, eram tratados os movimentos feministas. As instituições públicas, como a Assembleia Legislativa, são ecos da própria sociedade e há 20 anos era muito comum desprezar ou mesmo não dar importância a situações em que a mulher fosse ouvida. Era muito diferente do momento que vivemos hoje, em que observamos uma campanha mundial a respeito da ajuda mútua entre mulheres. Eu sempre tive esse contato com mulheres. Durante 20 anos em Anápolis, eu fiz, anualmente, o Encontro da Mulher. Sempre tive esse foco de apoio à mulher, diferentemente de outras deputadas, o que dificultou a união em favor de um objetivo comum. Aquela realidade era muito distinta da que observamos hoje no mundo, de mulheres apoiando umas às outras. Hoje temos visibilidade devido a luta de tantas pelo mundo. Tenho orgulho de pertencer à bancada que criou a Comenda Berenice Artiaga, em homenagem à primeira deputada de Goiás. Para receber a honraria indiquei mulheres que nos orgulham pelo trabalho, destemor e ousadia.

Temos cotas de 30% para as candidaturas femininas. Hoje isso vale para coligações. Mas a partir do ano que vem a legenda tem que atender a esse número. Muito se discute sobre a efetividade dessas cotas, já que o número de mulheres eleitas não corresponde ao número de mulheres que se candidatam. Como a senhora avalia isso?

Essa questão das cotas foi importante, pois nós sabemos que o machismo impera na política por vários motivos. Acham que política não é coisa de mulher. O homem acha que a mulher não tem inteligência e sagacidade para a política. Eles não sabem de nada, não é? (risos). Então, culturalmente se acreditava que o homem é mais forte, e a política seria, então, para os fortes – pensamento validado pela sociedade que pode resultar no afastamento feminino do meio político. Mas há também as dificuldades naturalmente impostas às mulheres. Por exemplo, a mulher que alcança um patamar social em que tenha uma carreira, não vai abrir mão da sua profissão, por mais líder que ela seja, para entrar numa nova atividade que, para ela, é totalmente nova e ainda desconhecida. Há essas questões. Nasceu essa possibilidade de as mulheres terem, no mínimo, 30% das vagas, mas isso não significa que tenham que ser apenas 30%, uma vez que o partido pode decidir a real porcentagem dessas vagas. Se o partido quiser colocar 100% das vagas para mulheres, ele pode. No entanto, é muito difícil encontrarmos mulheres que queiram pelo menos completar essas vagas. Uma não pode porque o marido está precisando dela, outra não pode porque é professora e se sair, quando voltar não terá a vaga. A outra não pode porque tem dificuldade de falar em público, por exemplo. Às vezes, ela mesma não acredita no seu próprio potencial. Então, temos que ativar essa liderança das mulheres, ativar a possibilidade de ela acreditar no valor que ela tem. Como militante de partido, eu sei como é difícil conseguir mulheres para preencherem as vagas. Há a necessidade de buscarmos essas mulheres que são líderes, que estão atentas às questões sociais que precisam ser mudadas. Eu não desisto e continuo insistindo para que mais mulheres sejam candidatas.

Existem barreiras impostas à atuação feminina dentro dos partidos?

Sim, elas existem na medida em que o partido não percebe a força que a mulher tem na política, e que precisa ser estimulada. O homem não quer dar espaço para a mulher. Atualmente, é mais difícil para a mulher se inserir na vida pública, mas ela consegue mesmo assim. Acho que esse deve ser  pensamento: ‘Se tantas chegaram lá e eu quero, então eu vou conseguir’. Não posso dizer muito da dificuldade dentro de partidos e dentro do convívio familiar, pois eu não tive essas dificuldades. Talvez pela minha ousadia, não sei. Ninguém nunca puxou meu tapete em nenhuma situação. Temos no partido aquelas questões de ego, em que um quer ter mais espaço do que o outro. Mas a mulher é uma lutadora. Se é isso que ela quer, ela tem que lutar e conseguir. O partido não vai desprezar uma mulher que tem voz e se desponta para ser candidata. Os partidos sérios vão dar apoio para ela ter votos, pois é necessário. Acredito que nenhum partido vai desprezar uma mulher que tenha votos.

Suponhamos que tenhamos uma mulher e um homem com possibilidades de serem eleitos, na mesma posição. Para quem a senhora acredita que os recursos serão direcionados dentro do partido?

Há um tempo atrás se dizia que para você competir com um homem você teria que pensar como um. É uma coisa preocupante pensar assim. Afinal, a mulher pode ser ousada também, mostrar que é capaz. Quando ela se impõe e mostra sua capacidade, o homem respeita. Eu acredito nisso.

Na sua última legislatura de 2003 a 2007, a senhora esteve aqui com outras oito colegas. Foi a maior representatividade feminina no legislativo. Hoje, inclusive, na legislatura atual temos duas parlamentares, o que é uma redução de 50% com relação à última legislatura. Como era a convivência naquele momento? Havia parceria com outras mulheres?

Tínhamos muito trabalho nos nossos municípios. Porém, um trabalho voltado exclusivamente para mulheres não era ainda um objetivo da bancada feminina como é hoje. Nosso trabalho era muito voltado às nossas representações. Mas, aqui, tivemos um evento muito importante, que foi o primeiro sinal de valorização feminina, a Comenda Berenice Artiaga. Foi um avanço para que lembrássemos das mulheres que trabalharam pela causa feminina. É bom lembrar que Berenice esteve conosco em várias premiações quando ela ainda era viva. Ela foi uma deputada por uma fatalidade, era para ser o esposo dela como candidato. Mas ele foi assassinado durante a campanha. Ela acompanhou uma comissão da Assembleia que foi até Getúlio Vargas para levar a ele o documento de que Goiás estaria oferecendo uma área para a mudança da capital do Brasil. Ela participou ativamente.

Estamos chegando a quase um século de participação efetiva das mulheres na política (1932/87 anos: conquista do direito de voto feminino) e ainda assim as mulheres enfrentam até os dias de hoje grandes dilemas para se manter na vida pública (exemplos recentes, com repercussão nacional e/ou internacional: caso Marielle, caso deputada federal Maria do Rosário. O que você considera ser o maior desafio hoje para as mulheres no que tange à vida política?

O cenário político para as mulheres é sempre um desafio, porque a cultura tradicional patriarcal cria – ou criava – mulheres para serem adendos dos seus esposos e filhos. Enquanto os brinquedos dos meninos são sempre de disputas, de concorrência para saber qual o mais forte, o mais rápido, o mais esperto, as meninas brincam – ou brincavam – de festa de aniversário e de boneca. Romper esse status ainda parece difícil para a maioria das mulheres, uma vez que o cenário político é, naturalmente, de disputas, de convencimento, de conflitos. No meu caso, tive uma educação familiar direcionada para desenvolvimento dos meus dons, somado ao fato de convívio com a vida política de respeito, idealismo e honestidade da família Santillo. Sempre tive o apoio do meu esposo, Adhemar Santillo, que me incentivou a fazer o meu primeiro discurso em cima de um caminhão, em um comício em 1974. Em situações de indecisões e alguma dificuldade de como agir, ele sempre me estimula dizendo: ‘Siga sua intuição, faça do seu jeito!’. Embora a mulher não tenha tido na atividade política uma representação equilibrada, em números de cadeiras nos legislativos e muito menos ainda no Executivo, a força feminina tem presença significativa na carreira jurídica, concursos públicos e no meio acadêmico. O protagonismo da mulher tem sido demonstrado também no mundo empresarial com excelentes exemplos de empreendedorismo singular. A mulher tem mostrado capacidade, força e liderança como protagonista desta nova sociedade que rejeita toda forma de discriminação e preconceito.

Dentre as suas últimas incursões na política, nota-se o fato de ter sido candidata a vice-governadora na chapa liderada por Maguito Vilela, em 2006. Como foi a experiência?

Ser candidata a vice-governadora na chapa de Maguito Vilela, em 2006, foi uma grande honra pela confiança em mim depositada e pela pessoa correta do ex-governador, que tem um grande histórico de bom trabalho prestado ao Estado de Goiás.

Você foi pioneira do MDB Mulheres, tendo possivelmente influenciado outras que a sucederam. Quais foram as mulheres que te influenciaram em sua trajetória política?

Muitas mulheres me inspiraram a cada dia. No início, tive o exemplo da minha mãe, Carmelita Dias Silva. Ela foi uma mulher de garra, que sempre teve disposição de acolher pessoas, de ver a necessidade do outro. Além dela, eu cito os nomes de Maria Luiza Fagundes, Terezinha Zerbini, Ruth Escobar, Maristela Mendes. Elas são mulheres que me deram exemplo de força para transformação em simples conversas nas reuniões políticas e sociais.

A senhora é mãe de três homens. Já se viu diante de situações que necessitou fazê-los refletir e repensar comportamentos que não reforçassem esse predomínio masculino em detrimento das mulheres?

Não. A gente ensina muito mais por exemplos. Sempre damos, meu esposo e eu, exemplo de respeito e liberdade para que eu pudesse desenvolver meus dons na política. Então, nunca precisei dizer que eles precisavam respeitar as mulheres, eles sempre respeitaram, pois viam nossos exemplos. Isso foi importante.

Como foi o relacionamento com os colegas de Parlamento, durante os seus três mandatos nesta Casa de Leis?

A convivência com as brilhantes colegas de Parlamento foi sempre uma honra para mim, um aprendizado político e também para a vida. Tive ainda a oportunidade de participar da mesma legislatura com a filha de Henrique Santillo, minha sobrinha Carla, embora por um pequeno espaço de tempo, visto que ela assumiu o cargo de Conselheira no Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Dentro do seu partido, como era/é a situação das mulheres? Houve apoio partidário durante as campanhas e os mandatos?

Sim, tive. Os partidos políticos, de maneira geral, têm o pensamento masculino-machista de valorizar as lideranças de candidatos, sendo sempre mais difícil para as mulheres. Contudo, nenhum partido vai desprezar uma liderança feminina, nenhum partido vai deixar de investir em uma candidatura que possa trazer mais votos para a legenda. O caminho é mais difícil para a mulher, sem dúvida.

O que precisa ainda ser feito para aumentar a representatividade feminina no Legislativo e na política de forma geral?

O estímulo à participação política deve começar muito cedo, tanto para meninos quanto para meninas, nas escolas, nos colégios, com a representação de classe, com o retorno aos grêmios estudantis, com a preparação e desenvolvimento de dons de liderança, que florescerão na atividade social e política.

A seu ver, que legado acredita que mulheres como você têm deixado para a história do Parlamento Goiano?

Foram mulheres batalhadoras. Cada uma que esteve aqui fez um trabalho importante. Não tenho dúvida que cada uma delas deixou uma marca, não só de trabalho, mas uma marca de inspiração para que outras mulheres se candidatem e venham para o Legislativo. Toda mulher que conseguir avançar em conquistas pessoais, sociais, profissionais, posições de liderança ou notoriedade, deve ser exemplo positivo para as demais. Assim como oferecer a mão para ajudar outras mulheres a avançar e crescer também. Este deve ser o grande legado feminista, o maior legado que deixamos para as futuras gerações.

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