Home Opinião Editorial Edição 661 | Contra o ideal olímpico

A prisão de Carlos Arthur Nuzman é só mais uma prova que o Brasil viveu durante anos sob o comando irrestrito da corrupção. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) deveria ser um exemplo de retidão, pois representa um ideal de união dos povos e da superação através dos próprios esforços. O que se vê agora, com a operação da Polícia Federal, é que antes de qualquer coisa, o objetivo de Nuzman sempre foi vencer a todo custo, a partir de um esquema ilegal, o que contraria frontalmente os ideais olímpicos.

No pedido de prisão apresentado pelo Ministério Público Federal (MPF), Nuzman é acusado de tentativa de ocultação de bens. Também é apontado um aumento do patrimônio do presidente do COB de mais de 457% entre os anos de 2006 e 2016.

A escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 foi uma farsa. A cidade que tanto orgulha os brasileiros e que tem atributos suficientes para sediar qualquer grande evento deste planeta foi usada como pretexto para políticos e dirigentes de órgãos públicos ganharem muito dinheiro.

Carlos Nuzman e seu braço direito, Leonardo Gryner, também detido pela PF na última quinta-feira (5), foram os agentes responsáveis por unir pontas interessadas, fazer os contatos e azeitar as relações para organizar o mecanismo do repasse de propinas de (ex-governador do RJ) Sérgio Cabral diretamente a membros africanos do COI (Comitê Olímpico Internacional).

Na denúncia apresentada pelo Núcleo de Combate à Corrupção do Ministério Federal do Rio, Nuzman é tratado como uma peça que, sem ele, a “engenhosa e complexa relação corrupta” não teria ocorrido. Não há, no documento de 129 páginas divulgado pelo MPF, qualquer menção de que o presidente do COB tenha enriquecido ilicitamente ou tenha ele recebido propinas.

O MPF ainda promete investigar “movimentações suspeitas” nas contas do COB. Uma análise de um relatório de inteligência financeira do COAF mostra que, entre janeiro de 2014 e abril de 2015 foi sacado R$ 1,4 milhão em espécie das contas do COB.

A investigação contou com a colaboração do Ministério Público francês. Inicialmente, os procuradores franceses apuravam caso de doping no atletismo. A partir da denúncia de um antigo opositor de Nuzman no COB, o MP da França descobriu existência de um esquema de compra de votos, acionando a Polícia Federal brasileira para cooperação na investigação. Onde fica o ideal olímpico?

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