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Home Destaques A real situação da saúde pública em Anápolis

Anápolis não tem a quantidade de UTIs COVID-19 que alega ter

Por Tiago Oliveira.

O ano de 2020 nos faz recorrer, inevitavelmente, ao clichê: “esse ano vai ficar para a história”. O bordão utilizado por 11 de cada 10 pessoas em todos os anos nunca foi tão útil e verdadeiro como no ano corrente.

É a primeira vez que os Jogos Olímpicos são adiados em toda a história. Nas outras três vezes em que não houve disputa a competição foi cancelada em razão de duas grandes guerras mundiais.

Há quem diga que nada acontece sem a permissão divina – corroborado por este que vos escreve – outros não, ou pelo menos não acreditavam até o presente ano.

Fato é que todos foram pegos de surpresa – alguns mais que outros – descobriram a existência da família, do lar, a falta que fazem jogos de futebol perebas e o poder das redes sociais – quem ainda estava vivendo no século XX.

Aqui na “Manchester” goiana não é diferente, como também não o foi ver trapalhadas de governantes incapazes em toda a Terra de Santa Cruz, mais preocupados com suas carreiras políticas e com as próximas eleições, como usualmente o é na “ré-pública” brasileira, a administração pública municipal tem colecionado contradições e trapalhadas no combate à pandemia de COVID-19 na cidade de Sant’Ana das Antas.

Tudo começou aqui pelas bandas do novo mundo com a Lei Complementar Nº 173, de 27 de maio de 2020 que estabeleceu o Programa Federativo de Enfrentamento ao Coronavírus, destinando algo em torno de R$ 125 bilhões a estados e municípios para combate à pandemia da covid-19.

Anápolis recebeu aproximadamente R$ 50 milhões de reais para o combate ao vírus oriundo da China. Desde o início da pandemia o governo municipal tem colecionado polêmicas.

A primeira polêmica diz respeito ao o Centro de Internação Norma Pizzari Gonçalves, antigo e tradicional Instituto Nossa Senhora do Carmo localizado no bairro Jundiaí. A secretaria de saúde de Anápolis sustenta haver 06 leitos com respiradores na unidade. Entretanto uma consulta ao dataSUS através do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde) se descobre que a informação da quantidade de respiradores ou monitores no hospital não consta no sistema nacional, como pode-se ver abaixo:

Leitos:

Equipamentos:

A reportagem apurou que os vereadores Pastor Elias (PSD) e Lélio Alvarenga (PSC) fizeram visitas surpresas na última quarta-feira (24) às unidades de saúde administradas pelo município para investigar a real situação da saúde anapolina. Em entrevista o vereador Pastor Elias informou que pacientes suspeitos e confirmados estão sendo colocados lado a lado sem isolamento algum. Importante lembrar o caso acontecido no HUGO de Goiânia onde aproximadamente 78 servidores da área de saúde foram afastados, os profissionais foram infectados ao terem contato com pacientes que estavam com a doença, mas ainda não tinham sido diagnosticados.

A segunda polêmica foi a briga comprada com a classe médica da cidade. O prefeito declarou em entrevista coletiva que médicos se recusam a trabalhar no combate ao coronavírus, tendo recebido como resposta do Sindicato dos Médicos de Anápolis (SIMEA) que não houve recusa alguma de médicos, e que não havia treinamento e condições de trabalho para que os profissionais atuassem na linha de frente do combate à pandemia.

Em pesquisa feita ao site do Ministério da Saúde, a Portaria 895, de 31 de março de 2017, define os critérios para a criação e montagem de uma UTI. O Capítulo III, seção II, subseção II, item 9 elenca as condições para instalação de unidades de terapia intensiva:

“9. Para habilitação, a UTI-a Tipo II deverá contar com a seguinte equipe multiprofissional mínima:

I – 01 (um) médico responsável técnico com jornada mínima de 4 horas diárias, podendo acumular o papel de médico rotineiro, com habilitação em Terapia Intensiva comprovada por título;

II – 01 (um) médico rotineiro, com jornada de 04 (quatro) horas diárias, para a unidade, com habilitação em Terapia Intensiva comprovada por título;

III – 01 (um) médico plantonista, para cada 10 (dez) leitos ou fração, em cada turno, com no mínimo três certificações entre as descritas a seguir:

  1. a) Suporte avançado de vida em cardiologia;
  2. b) Fundamentos em medicina intensiva;
  3. c) Via aérea difícil;
  4. d) Ventilação mecânica; e
  5. e) Suporte do doente neurológico grave”.

Diante das informações colhidas no CNES e declaração do SIMEA fica o questionamento, os pré-requisitos da portaria ministerial foram atendidos?

Não para por aí, a terceira polêmica diz respeito às UPAs, que de acordo com o site do Ministério da Saúde, autoridade máxima da saúde no país, o objetivo das Unidades de Pronto Atendimento “é concentrar os atendimentos de saúde de complexidade intermediária, compondo uma rede organizada em conjunto com a atenção básica, atenção hospitalar, atenção domiciliar e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU 192.

A Portaria nº 10 de 3 de janeiro de 2017 em seu artigo 5º, VIII dispõe:

“Art. 5º (…)

VIII – manter pacientes em observação, por até 24 horas, para elucidação diagnóstica ou estabilização clínica, e encaminhar aqueles que não tiveram suas queixas resolvidas com garantia da continuidade do cuidado para internação em serviços hospitalares de retaguarda, por meio da regulação do acesso assistencial”.

 Ou seja, a UPA não tem competência para abrigar unidades de tratamento intensivo, como diz a prefeitura municipal de Anápolis. O mesmo site do Ministério da Saúde informa que não há leitos nas UPAs de Anápolis:

Apesar de haver 9 respiradores:

A UPA 24h oferece estrutura simplificada, se necessário o paciente poderá ser encaminhado para um hospital da rede de saúde, para realização de procedimento de alta complexidade. Fica o questionamento. Por que a SEMUSA informou que haveriam leitos de UTI em UPAs do município quando a legislação vigente não permite?

A quarta polêmica se refere ao sucateado Hospital Municipal Jamel Cecílio, que de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde possui apenas 2 unidades de isolamento e 6 respiradores. Como existem 6 respiradores para 2 leitos?

A próxima instituição administrada pela prefeitura municipal em que encontramos divergências entre o que é dito e o que está registrado é a tradicional Santa Casa de Misericórdia de Anápolis, por não possuir estrutura, uma das instituições mais antigas da cidade está enviando suas grávidas com COVID-19 ou suspeita de COVID-19 para o Hospital das Clínicas de Goiânia. O hospital não possui nenhuma UTI exclusiva para COVID-19.

Apesar de possuir 22 ventiladores nenhum está disponível atualmente. Os leitos de UTI para COVID-19 precisam ser isolados devido ao alto risco de contágio do vírus, e nesses locais é sabido, através dos dados demonstrados, que não possuem preparo para o isolamento. Como será feito o tratamento dos infectados por COVID-19? Todos juntos dentro de uma mesma UTI, dentro da mesma enfermaria?

Por fim chegamos ao HUANA (Hospital de Urgências Dr. Henrique Santillo). Em entrevista ao jornalista Cândido Filho no programa Cidade em Debate no dia 08 de junho o médico infectologista Dr. Marcelo Daher chegou a declarar que o “Hospital de Urgências tem sido reservado para os pacientes do interior”, fato que gerou revolta na cidade.

Em nota o HUANA desmentiu o fato dizendo que, “que não existem impedimentos para que cidadãos de Anápolis com suspeita ou confirmados para Covid-19 tenham acesso ao atendimento nesta unidade de saúde. Pelo contrário, o Huana recebeu, desde o início da pandemia, pacientes anapolinos com suspeita e confirmados para Covid-19, alguns provenientes de unidades de saúde públicas municipais e outros de forma espontânea. Tanto que desde o início do atendimento no Huana a pacientes com suspeita ou confirmados para Covid, 55% dos pacientes atendidos são do Município de Anápolis”.

A Secretaria Estadual de Saúde também se pronunciou sobre o caso:

“A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) esclarece que os leitos de UTI Covid-19 do Governo de Goiás são regulados pela gestão estadual, servindo pacientes de todo o território goiano, conforme os princípios do Sistema Único de Saúde.

O Hospital de Urgências de Anápolis, por exemplo, tem uma abrangência macrorregional, recebendo pessoas de Anápolis e também de outras cidades goianas com a função de salvar vidas. Assim, a unidade cumpre o objetivo de prestar assistência às vítimas da Covid-19 que necessitam de internação em UTI ou enfermaria, sem nenhuma distinção do local de residência do cidadão”.

Em uma busca pesquisa no CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde) nos certificamos que de fato o único hospital possuidor de leitos UTI para COVID-19 na cidade é o Hospital de Urgências Dr. Henrique Santillo, 15 no total:

Aonde estariam os leitos de UTI para COVID-19 divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde de Anápolis?

Com o aumento exponencial de casos no estado todo e na cidade de Anápolis, o prefeito Roberto Naves (PP) concedeu entrevista coletiva na tarde de quinta-feira (25) e declarou que a administração não havia equipado as unidades de saúde anteriormente porque não havia demanda. Ora, é necessário esperar que a população adoeça para a estruturação do sistema de saúde que já vem há anos pedindo ajuda? Nesse meio tempo, quantas pessoas contraíram o vírus e não foram adequadamente atendidas? Quantos óbitos podem ter acontecido por tal motivo? O prefeito ainda disse na coletiva que os locais estão cheios de vagas para tratamento do coronavírus, porém todas as vagas necessitam de isolamento, nossa reportagem apurou que não existe preparo para o isolamento nas unidades de saúde administradas pelo SEMUSA.

Na mesma entrevista, o infectologista Dr. Marcelo Daher disse que uma reclamação dos pacientes que têm sido atendidos pela rede municipal “é a falta de informação. Então os pacientes entram para lá e a informação é muito vaga sobre o estado dos pacientes, essa reclamação tem acontecido, a gente precisa ter mais transparência e maior informação sobre o que está acontecendo”.

Recebemos relato de uma parente de uma paciente idosa com suspeita de COVID-19 que se encontra entubada em estado gravíssimo desde quarta-feira (24) em uma das unidades de pronto atendimento da cidade (UPA), a entrevistada que não quis ter seu nome revelado, diz que a avó aguarda desde o dia 24 o resultado do exame para a confirmação da doença, relatou ainda de que foram informados não ser possível transferir a paciente para uma UTI pelo fato de não haver resultados de exame mas que a avó está isolada, entretanto não conseguiram confirmar o fato. Antes do fechamento da matéria a idosa veio a óbito.

A pergunta que fica: Se o exame fosse negativo, a paciente continuaria entubada em estado gravíssimo e sem leito para tratamento adequado por não ter confirmado COVID-19?

 As polêmicas e acusações são muitas e as respostas escassas. No ritmo que a coisa anda só resta à população Anapolina orar a Deus para que esse mal que assolou o mundo desapareça, do contrário o sofrimento tenderá a aumentar e mais cidadãos irão perecer ante o descaso que – como sempre – são tratados.

A reportagem procurou a prefeitura municipal mas foi informada que as declarações só serão realizadas através de entrevista coletiva oficial do Prefeito Roberto Naves.

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