Home Opinião Tempos estranhos | por Marcos Vieira

Já ficou bem claro que aqueles que foram para as ruas, bater panela contra Dilma Rousseff, não estão dispostos a fazer o mesmo para reclamar de Michel Temer, apesar das denúncias de corrupção gravadas em áudio e vídeo. A diferença talvez seja que os grandes financiadores daqueles movimentos ‘espontâneos’ estão recebendo a parte prometida a eles, como a reforma trabalhista.

A questão mais urgente agora – talvez até mais do que desalojar do poder a quadrilha do presidente – talvez seja reduzir na sociedade o ranço herdado da época do impeachment. É muito óbvio que esse Movimento Brasil Livre (MBL), que de nada concreto produz para a sociedade e que se tornou especialista em ataques virtuais, tem como único objetivo garantir um naco do poder para seus chefes.

Outro dia recebi em uma rede social um banner criado pelo MBL. Fotos de Marina Silva, Ciro Gomes e Joaquim Barbosa estavam acompanhadas de uma mensagem dizendo que o MBL não aceitará que eles “assumam” o poder. É no mínimo pretensão demais, ou ingenuidade, embora eu prefira acreditar que seja burrice mesmo, acreditar que um pequeno grupo poderá sobrepor ao voto direito.

Não aceitar o resultado de uma eleição é ir contra a democracia. Simples. E quem apoia esse tipo de proposta não conhece a história recente do Brasil. Um erro comum e que os amantes da Ditadura insistem em propagar é que o contrário dos generais no poder naquela época seriam os comunistas. Em pouco tempo, as Forças Armadas, com todo o dinheiro e aparato do Estado, colocou os grupos que faziam a luta armada nos porões, matando seus membros e ocultando cadáveres. A diferença de forças era gritante.

A esquerda daquela época foi só uma desculpa para que os ditadores justificassem a sua permanência no poder. O povo não apoiava a União Soviética ou a China e o Brasil nunca passou perto de seu transformar em uma “imensa Cuba” – essa expressão é o clichê maior daqueles que no fundo precisam explicar uma única coisa: por que apoiam uma época em que o brasileiro foi proibido de votar e eleger diretamente seus governantes?

No fundo esse tal de MBL prega algo semelhante, ao dizer que não aceitará que alguns possíveis candidatos assumam cargos, mesmo sendo escolhidos nas urnas. Geisel e Golbery, dois grandes mentores da Ditadura, não acreditavam que a grande ameaça brasileira naqueles tempos era vermelha. Eles alimentavam mesmo a teoria de que o povo não sabia votar, portanto não poderia exercer esse direito. O MBL defende isso, embora seus chefes não tenham a mesma inteligência que os generais que resolveram fazer política também fora dos quartéis.

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