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Delegado Fábio Vilela fala de planos para Anápolis, como criar centrais mais humanizadas e firmar parcerias público-privadas

ANDRÉ FELIPE RIBEIRO

Titular da 3ª Regional de Polícia Civil, a chamada Delegacia Geral, Fábio Vilela diz que os índices de criminalidade em Anápolis têm caído, mas aponta que há muito a ser feito para que a sensação de segurança chegue de maneira ampla ao cidadão. Para isso, ele tem projetos inovadores para a sua área. O delegado recebeu o JE para falar de alguns deles. Confira os principais pontos da entrevista.

A população vive uma sensação de insegurança. Qual é a real situação de Anápolis?
Se existe em Anápolis a impressão de que a criminalidade está aumentando nos indicadores que controlamos, ela é falsa. A realidade é que nos três primeiros meses do ano, em comparação com igual período de 2016, os índices diminuíram bastante. Falo de indicadores que segundo grande parte dos estudos criminológicos, são geradores daquilo que desencadeia essa sensação de insegurança na população: homicídio, latrocínio, estupro e roubo.

Então há avanços?
Em Anápolis os únicos indicadores que não conseguimos bater [reduzir] estão na região sul. Isso devido a um latrocínio. Ano passado no primeiro trimestre não havia tido nenhum crime deste tipo naquela região.

Quais outros números o senhor destaca?
Em relação ao roubo a transeunte, em 2016 tivemos 227 casos nos primeiros três meses, algo elevado. Neste ano baixou para 198 casos. O que a gente entende é que é natural – por mais que tenhamos diminuído alguns indicadores – essa impressão de insegurança. Ela surge, por exemplo, quando o cidadão vai registrar um crime e vê menos policiais na repartição. O que a gente compreende como gestor é que somente com o tempo, com o esforço e com o investimento aliado ao trabalho de diminuição de indicadores e de aumento da resolução de crimes nós vamos conseguir alcançar a sensação de segurança da comunidade. E não vai ser da noite para o dia.

A tecnologia pode ajudar?
A implantação de mais câmeras [nas ruas] provoca essa sensação de segurança. Você está andando no Centro e sabe que há uma vigilância. Outra questão é a construção do presídio. Com mais vagas, o cidadão tem ciência que o Judiciário não vai soltar por qualquer coisa. Só vai para a rua mesmo aguardar o julgamento em liberdade aquele que realmente tem direito e que o juiz entende que não gera perigo ou dano à comunidade.

O poder público municipal pode colaborar?
É outra questão que pode aumentar a sensação de segurança: a implantação da guarda civil, que não precisa ser armada, pode ser equipada com rádio. Integrada com outras forças policiais, ela colaboraria de maneira positiva para a cidade.

Como lidar com o presídio, que também gera violência nas ruas, através das facções?
Temos um trabalho integrado entre Secretaria de Segurança Pública, POG [Penitenciária Odenir Guimarães] e Polícia Civil. Algo voltado para a inteligência e monitoramento, que analisa as facções, as brigas entre rivais. Em alguns casos tem quadrilha, mas na maioria das vezes são bandos, pessoas que se conhecem no presídio e acabam criando um vínculo de micro-sociedade. Não existe formalmente por parte da Secretaria de Segurança Pública o reconhecimento de que haja uma ou outra facção criminosa comandando uma ou outra área do presídio, isso nunca foi fruto de uma reunião que eu tenha participado ou algum documento que eu tenha recebido.

Existem então aliados por conveniência?
Os detentos vão se aliando lá dentro para poderem, obviamente, viverem dentro do cárcere. Aqui em Anápolis é da mesma forma: temos as alas e formalmente a gente sabe que tem uma pessoa que é mais influente em uma ala do que outra. O nosso receio a princípio não era de que uma quadrilha de Aparecida de Goiânia viesse para poder atuar aqui. Nossa principal preocupação é realista, é de que o policiamento local de Anápolis fosse desviado para fazer a cobertura da guarda desses presos. Então nossa preocupação era de não tirar uma viatura do bairro para poder cuidar do perímetro externo do presídio.

A princípio foram seis viaturas para o presídio?
Essa informação eu não tenho formalmente, mas de forma informal, do relacionamento profissional com o comandante regional e nas reuniões que eu participei, ele mencionou isso por alto. Outra real preocupação que tínhamos aqui é que a vinda dos presos pudesse acirrar os ânimos internos do presídio antigo, uma vez que havendo vagas e havendo previsão de transporte de presos para a ocupação de novas estruturas, é obvio que isso ficou na cabeça daqueles presos que já estavam no presídio, naquele emaranhado de gente. A expectativa de que eles iriam para um lugar mais amplo e que não tivesse tanta lotação, principalmente por parte dos presos condenados, porque ele quer – em regra – cumprir sua pena, poucos são aqueles que têm interesse em fugir. Então ele quer o mínimo de conforto, quanto mais espaço ele tiver na cela, mais oportunidade de tomar banho de sol, de receber visita. Então isso trouxe certa preocupação, que esses presos mais antigos passassem a querer fugir, ou fazer uma rebelião. Os presos poderiam acionar colegas de quadrilha que estão na rua, por exemplo.

Quais são os principais avanços da Polícia Civil em Anápolis?
Primeiro foi a redistribuição do território, das circunscrições. Isso permitiu que a gente tirasse do papel mais duas delegacias especializadas e que fizesse elas funcionarem, que é a Delegacia de Trânsito e o Grupo de Investigação de Crimes Contra o Consumidor. Tem ainda a Delegacia do Idoso. Vocês devem ter reparado no número de ações sociais que aumentou. Hoje temos mais delegacias do que tínhamos antes, só que com o mesmo número de policiais. Atualmente o Genarc e Gepatri atuam juntos, porque a gente percebeu que não era raro que as quadrilhas que estavam sendo investigas pelo Gepatri eram as mesmas investigas pelo Genarc. Elas atuam em várias áreas. Além do tráfico, o carro roubado que é usado para transportar a droga vai para o desmanche. Hoje também focamos nos recursos humanos. Temos quatro policiais especializados nestes tipos de crimes. Antes não tínhamos nenhum.

E o furto e roubo de carros em Anápolis?
O índice de furto e roubo diminuiu bastante em relação ao ano passado porque os policiais daqui começaram a ter um vínculo maior com as delegacias especializadas de Goiânia, passaram a se ligar mais na unidade de inteligência que trabalha no desvio de carga. A quantidade de carga que foi recuperada em 2016 e 2017 é bem superior a 2015. Gostaríamos que Anápolis fosse o polo atacadista mais seguro para se investir no País, com os menores índices de roubo de carga, mas é com mais trabalho e mais investimento que a gente chega lá.

O que mais se conquistou?
Outra grande conquista foi que conseguimos autorização para unificação de todas as especializadas em proteção a pessoa. A proteção ao idoso, proteção à pessoa com necessidades especiais, proteção à criança e ao adolescente e proteção à mulher serão unificadas em uma só unidade. É óbvio que cada uma dentro da sua especialidade, cada uma com sua própria recepção e equipe, só que tudo isso num só local, em um só ponto geográfico. O que vai facilitar, por exemplo, a busca das famílias por atendimento.

O que precisa ser melhorado em Anápolis?
Falta agora os gestores públicos que tem a caneta na mão fecharem a Parceria Público-Privada. Até a autorização do Governo de Goiás já conseguimos, falta agora realmente o prefeito, ou o secretário de Segurança Pública, firmar a parceria. Com isso, nos tiraríamos a central de flagrantes lá da Praça dos Expedicionários, que poderá ser revitalizada para a população. Precisamos de uma central mais bem equipada e atuando 24 horas, que separe os tipos de crimes. Esse é o projeto piloto desde quando entrei na Regional, é a melhoria do atendimento 24 horas ao cidadão, é ter um local de excelência com a mesma visão de atendimento de um Vapt-Vupt. Com a mesma visão de atendimento rápido, a nossa intenção é essa, e é isso que precisamos melhorar no âmbito da Polícia Civil. Com isso, a consequência lógica será o maior dinamismo das investigações, resultados melhores e cada vez mais rápidos para a população.

Fazer segurança é difícil?
A segurança é algo complexo que passa por outras áreas, como assistência social, saúde e educação. A gente aqui na verdade é a última fronteira, é quando a educação falhou, quando a saúde falhou, quando a assistência social falhou que a polícia acaba sendo chamada. Vamos dizer o seguinte: o governo e a opinião pública sempre foram muito injustas com a polícia, porque acabava jogando as últimas esperanças do cidadão no colo do delegado ou do policial militar. Se a gente quer mudar, tem que começar a fazer diferente. Tenho consciência de que esse Observatório por parte do poder público municipal vai auxiliar e muito e já tem auxiliado bastante. No ano passado fomos a Regional, tanto por parte da PC quanto por parte da PM, que ficou entre as cinco com o maior número de operações integradas. Vai para a rua Polícia Civil, PM, quando tem guarda municipal vai também, CMTT, Procon, tanto estadual como municipal, Juizado, Postura. Esse trabalho e a investigação aumentaram demais a quantidade de inquéritos remetidos e de prisões executadas.

A Polícia Civil busca parceiros na sociedade?
No curso de Direito temos alunos estagiando nas unidades policiais, aprendendo algo que será útil para sua profissão. Agora o que vamos fazer é algo inovador. Estamos implementando em Anápolis o primeiro polo de parceria das unidades policiais com faculdades de engenharia e arquitetura. Nós vamos adaptar as unidades de Anápolis, que são muito acanhadas, transformando as em prédios públicos de atendimento humanizado ao cidadão. A pessoa hoje tem medo de entrar na delegacia para pedir informação. Nós vamos transformar algumas unidades aqui em referencia para o País. Estamos querendo também criar o investigador mirim nos mesmos moldes do bombeiro mirim, fazer parceria com indústrias do Daia. Os funcionários das empresas poderiam deixar o filho aqui no sábado de manhã, para lições de educação moral e cívica, de informática , educação ambiental. Tudo isso vai nascer aqui, provavelmente esse ano.

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