Home Opinião O plastificado | por Iron Junqueira

A camioneta do Lar ao virar a esquina do SESC quebrou o pino da balança e ficou estragada no meio da pista. O motorista Paulo Sérgio, na falta de um triângulo, botou uma lona de plástico vermelha na parte traseira da carroceria do carro e, na esquina, colocou o Hélio, um rapaz negro, de óculos escuros e touca vermelha, para avisar aos condutores de veículos que havia perigo na virada.

Tudo bem. O pessoal estava atendendo aos avisos do Hélio até que o “Milano”, um moço educado, funcionário da loja Milano, dobrando a esquina entrou atrás da C-10. O Paulo Sérgio chegara com o mecânico e eu cheguei ao local a fim de ver o que podia fazer. Então o Milano, muito educadamente, falou-me: –– Seu motorista não botou triângulo na rua. E o Dilmar de Almeida explicou: –– Mas, na hora, botou aquele rapaz lá na esquina.

E lá estava o Hélio fazendo sinal pro ônibus. O Milano, então, explicou: –– Ah, bem que eu vi ele correr pra cima da calçada…

Mas, conversávamos amigavelmente com o dono da Brasília, o Milano, rapaz calmo e de espírito elevado, quando fomos abordados por um carroceiro que foi logo ameaçando:

–– Vou botar fogo nos dois carros!!! Olhei pro distinto: era um pobre carroceiro, de short, sem camisa, novo, que logo se sentou no capô do carro do Donizete.

–– Mas vejam só! Falei ao palpiteiro. Temos, aqui, um incendiário. Um botafogo. Um terrorista…

–– Botafogo mesmo!

Alguém lhe estendeu um fósforo e eu aproveitei e disse-lhe:

–– Vai botar o fogo, vai. Assim, recorreremos à justiça e você terá que nos dar outros carros. Sabe, Botafogo, acho melhor você juntar-se ao seu cavalo. Pelo menos ele não está metendo o focinho no cocheiro de ninguém…

E o Donizete, mal controlando seu nervo, disse ao “botafoguense”:

–– Vamos, vamos! Sai de cima do meu carro! E o incendiário se afastou.

Eu, o Miliano, o Raimundo e o Dilmar esperavam a perícia que o dono da Brasília havia solicitado, quando aparece um estranho sujeito, surgido da pequena multidão de desocupados ali acampada, como a espera de ver o “pau quebrar”, achando que todo mundo TEM, obrigatoriamente, que ser ignorante.

Mas o esquisito sujeito, vocês nem podem acreditar!… Estava com uma touca de plástico transparente, um paletó de plástico transparente, e uma calça de plástico transparente, não falando da bota plástica transparente, das luvas de plástico e dos óculos da mesma forma. Esquisito demais.

Quando ele chegou todo mundo parou: era simplesmente um PLASTIFICADO, e foi logo bradando:

–– Eu vou guinchar os dois carros!

–– Ora, ora! Chegou um sujeito dentro duma “camisinha”. Bom, expliquei –– pelo menos assim não contamina NÓIS CA SUA GONORÃNCIA…

–– Se a perícia não chegar –– repetiu o cara, que mais parecia uma carteira de identidade plastificada e ambulante –– eu guincharei os dois carros!

Tamanha era a sua arrogância e autoridade que parecia um daqueles supositórios que davam força e prepotência prum certo general que não gostava de “cheiro de gente”. Diante de tanta altivez e falsa autoridade, o Raimundo Constâncio da Silva desarmou o PLASTIFICADO quando lhe perguntou pelos documentos de “alta patente federal”, pois com todo aquele bafo o “camisinha” não deixava por menos. Só podia ser de federal pra lá.

Aconselhado por testemunhas que assistiram a colisão, o Milano retirou seu carro e se foi deixando o Botafogo e o plastificado falando sozinhos:

–– Ora, logo agora que eu ia botar fogo nos dois carros, ele retira a Brasília! Disse o carroceiro. E o Plastificado, de nome Vilmondes, segundo me disse depois:

–– Na hora que eu ia guinchar… Montaram numa lambretinha tipo 1950 e se mandou, enquanto o carroceiro já sumia à distância, chicoteando o cavalo.

Vocês já repararam que nesses momentos de tumultos, em vez de apaziguadores, só aparecem agitadores? E tem uns que aproveitam pra realizar suas fantasias: dão uma de terroristas, juízes, militares, figueiredos, maguilas, políticos, supositórios, “camisinhas” –– cada um conforme seu ego, suas frustrações ou seus sonhos.

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