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TRABALHO INFANTIL EM OLARIA DA REGIÃO OESTE DA CIDADE DE ANÁPOLIS 2

Pesquisadoras levantam aspectos históricos da Vila Fabril das relações de trabalho ao convívio dos moradores do setor

 LUIZ EDUARDO ROSA

Uma pesquisa iniciada 2010 vem levantando a memória e os aspectos históricos da Vila Fabril. O setor povoado a partir da década de 1930 já trazia em sua identidade um mundo fabril, onde as atividades industriais ladeavam as residências dos operários. Ligadas a um programa de pós-graduação da Unievangélica, as pesquisadoras doutoras Genilda D’Arc Bernardes e Giovana Galvão Tavares descrevem a dinâmica dos moradores e as atividades industriais no setor, a partir de documentos e relatos de moradores.

Os ricos depósitos de argila localizados na saída de Anápolis para Ouro Verde atraiu olarias para produção de cerâmica, levando fábricas e moradores a partir década de 1930 à região, surgindo assim a Vila Fabril. Além da instalação da indústria, moradias para os operários eram construídas nas proximidades, levando uma aproximação das relações de trabalho ao cotidiano das famílias de trabalhadores. Após as olarias na década de 1930, sucederam a vinda de indústrias de cerâmica e na década de 1950, os frigoríficos. “A Vila Fabril em Anápolis iniciou uma maior atenção à atividade industrial em Goiás, que era muito voltada à produção agrária”, explica Genilda D’Arc.

A característica de ocupação das casas de operários lado a lado, com as instalações industriais, levaram as pesquisadoras a identificar o local como “Vila Operária”. Este tipo de ocupação e dinâmica de vida estão em experiências pelo mundo desde o século 18, na Inglaterra, destacando no Brasil nos principais focos de início da experiência industrial brasileira. As residências nas Vilas Operárias em aspectos muito comuns consistiam na construção das casas dos operários pelas empresas, na Vila Fabril, ora era a empresa, ora era o próprio trabalhador.  “Era uma relação de trabalho e vida muito particular em relação às outras formas de trabalho, no caso da Vila Fabril era afastada do centro da cidade”, explica Genilda. Em entrevistas com antigos moradores, foi relatado que para chegar aos estabelecimentos comerciais mais próximos era necessário andar cerca de seis quilômetros.

A indústria cerâmica e as olarias atenderam as novas formas de construir as casas e os edifícios, em materiais mais modernos a partir da década de 1940. “Neste sentido, a Vila Fabril serviu a construção de Goiânia e de Brasília com produtos que atendiam a demanda destas construções modernas nas capitais”, aponta Genilda. Na década de 1950 é constatada a vinda do frigorífico para o setor, dando a configuração das atividades com os três ramos industriais que são olaria, cerâmica e frigorífica. “Antes da chegada do frigorífico, o gado era abatido na Praça Americano do Brasil, na região central. Essas indústrias mudaram os hábitos na cidade”, explica Giovana.

Além das mudanças que as empresas na Vila Fabril geraram à cidade, as décadas áureas das indústrias no setor tiveram tensões entre trabalhadores e as direções das empresas. Eram conflitos de trabalho e paralisações gerados devido às horas excessivas de trabalho chegando a mais de oito horas por dia, salários baixos, trabalho infantil e acidentes no local de trabalho. As pesquisadoras constataram nas entrevistas com os moradores situações em que o próprio patrão revendia alimentos e produtos para o sustento das famílias de trabalhadores.

O valor dado pelo patrão aos produtos eram marcados em notas e no final do mês descontados no salário mensal dos trabalhadores, o que gerava endividamento e dependência. “Algumas relações de trabalho mais características do campo como o coronelismo eram percebidas no âmbito fabril, no caso da Vila Fabril”, constata Giovana, que aponta que eram problemas em que a realidade da Vila Fabril não era diferente de outros lugares no País em relação às relações de trabalho na indústria.

O Campo do Mago foi uma dos principais locais de socialização dos moradores da Vila Fabril, onde realizavam os jogos e festividades. “O campo era um local importante para a organização dos trabalhadores, seja no lazer como também na coesão coletiva”, explica Giovana. O setor começou a ter uma desaceleração da atividade industrial principalmente após a fundação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), em 1976, algo também sofrido por regiões com atividades fabris como a Jaiara e a Vila Jundiaí Industrial. A partir de 1980, nos momentos de crise econômica, jovens e adultos em idade ativa saíram do setor para trabalhar em outro país, sobretudo na Irlanda. “Foram jovens que deixaram seus filhos com seus pais e enviavam recursos da Irlanda para suas famílias, algumas até mudaram com todos os familiares para o exterior”, explica Giovana.

Pesquisa

Em 2004, Giovana foi chamada pela administração municipal para dirigir o Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho. Ao organizar o acervo fotográfico e demais arquivos do museu, ela constatou uma presença significativa de fotos, publicações em jornais e outros documentos acerca da Vila Fabril. “Percebi entre os documentos relacionados aos bairros anapolinos, que a Vila Fabril se destacava, inclusive na imprensa nas décadas passadas”, explica Giovana sobre o ponto de partida para realizar as pesquisas sobre o setor.

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